Nós, os sem talento

A minha mente é um pântano. Escura, imprevisível e mortífera. Sabia-o – como sempre soube – na deliciosa noite em que nos despenhei, roubando-nos as vidas patéticas que até então vivemos.

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Ao meu lado, o homem que amava há mais de 30 anos, roncava, ruidosamente. Soquei o seu braço flácido na esperança de o acordar daquele sono barulhento. Em vão. A boca descaída, levemente, húmida, emitia um som cada vez mais intenso e perturbador.

O interior do carro cheirava a menta e lavanda, numa combinação estranha e nojenta de trivialidade.

Seguia madrugada a dentro, presa ao volante e à vontade de chegar ao nosso destino de sonho. Sobrava-nos poucos quilómetros: ínfimos pedaços de alcatrão que, uma vez galgados, significariam a derradeira concretização de tudo o que temera.

“Tens tudo preparado?”, perguntou-me João, cujo rosto triangular acusava os quilos de bolo, excessivamente, consumidos ao longo dos últimos anos.

“Já ligaste ao senhorio a avisar?”, atirei-lhe, amargamente, a dirigir-me para o túmulo portátil que nos levaria de volta à terra da qual havia partido.

“Tenho tudo organizado. Não te preocupes, querida. Daqui a nada já estamos em casa. Nunca pensei que este dia chegasse tão cedo”, sorriu-me João do alto dos seus 68 anos: uma bela idade para se entregar à reforma – e, conforme planeado por mim, à morte.

Vivi 25 anos da minha vida nesta metrópole distante.

Imigrei tarde, já cansada e pouco resistente. Venci o tempo e o costume: triunfei. Escrevi para as melhores casas. Convivi com as mais incríveis personagens. Na minha mente, o prolífero diálogo de sempre enchera-me o espírito durante anos a fio.

João, esse que agora jaz ao meu lado, deu aulas, sofregamente, até ao dia em que a minha editora me disse adeus e a sua universidade o considerou ultrapassado.

“Talvez tenham de regressar ao campo”, anunciara, friamente, o nosso contabilista. “Regressar? Uma segunda imigração aos 70? Àquela terra?”, berrei-lhe histérica, descontrolada, infeliz.

Martim, esse velho companheiro das contas prósperas de outras idades, cruzou os braços e explicou-me que, sem rendimento, pouco tempo nos restaria numa cidade daquela dimensão. “O urbanismo é para os novos”, disse-nos, piscando os olhos enrugados. “Agarra-te que, qualquer dia, também te vais”, pensei eu, travessamente.

Empacotamos as cuecas dilatadas que hoje insistiam em cobrir a pele comprida que não reconhecíamos como nossa.

Deixámos ali os móveis idosos para a próxima família feliz – quem sabe, dona do privilégio gerativo que a mim nunca chegou – a ocupar o estúdio boémio que nos deslumbrara durante décadas.

Connosco levámos as pilhas gastas de livros, muitos deles escritos por nós, quando ainda não éramos alvo de uma reciclagem forçosa.

“O ar puro far-nos-á bem”, disseste-me tu, imbecil como sempre. Concordei, arremessando o crânio nas curtas direcções às quais ainda o conseguia levar.

“Eu conduzo”, decidi, gargalhando ao ouvir a última nota da minha peça clássica predilecta. Nunca mais encheria a alma com os compassos excêntricos desse meu Richter.

Entrei nesse exemplar de mecânica notável decidida a terminar esses amontoados ridículos de dias em que se tornariam as nossas vidas.

Imigrei tarde. Já cansada e pouco resistente, quando o ar respirável do berço já inflamava quase fatalmente as veias subjacentes à nívea pele do costume.

Fugi, amuada com esse mundo de prodígios. Refugiei-me na massa de sem talentos que se julgam profissionais. Fiz-me adorada. Adorei-me. Transformei-me na descartável versão do que sempre almejara. Ainda assim, vivi-o.

A inclinação abrupta que ladeava o início da nossa origem acolheu-nos tão docemente. Tu dormias embalado nos soporíferos que experimentara dar-te, alegre. Eu sorria perante a brilhante imagem trágica da nossa estória.

Seria, finalmente, o animal original que sempre quisera: insuperável, mórbida e, sobretudo, excepcionalmente, dotada.

Para ouvir: Vladimir’s blues por Max Richter

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