Morte aos ladrões

A injustiça, esse flagelo conhecido, deixa livres os culpados e repreende as vítimas, transformando-as em gigantes revoltados, prontos a reaver a sua dignidade pela mira da sua própria arma. Será este o momento de deter os bandidos ou será, ainda, demasiado prematuro?

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O gigante e atarefado chão da Primark no advento engolia-me. Mergulhada nas filas de casacos e camisolas de lã natalícias, procurava eu as últimas prendas que preencheriam o meu pesado volume de bagagem de porão.

“Estás em casa?”, perguntou-me ansiosa a minha irmã. Algo não estava bem, suspeitei eu, segurando um telemóvel frágil que jamais recebera chamadas familiares a meio da tarde.

“Não, estou a terminar as compras de Nat… o que é que se passou?”, questionei, saltando duas palpitações cardíacas de cada vez. “Tens o teu colar de ouro em Lisboa?”, experimentou a minha irmã. “Sim, tenho. O que é que se passou?”.

O longo silêncio arrepiou-me. “Onde estão os teus ouros?”, prosseguiu a voz estranha. “Aí em casa, porquê?”, repliquei. “A casa foi roubada, não foi?”, concluí, sentindo a raiva, o medo e o choque a inflamar as minhas veias.

Deixei cair os massivos sacos de presentes que me cortavam os braços. Abandonei na prateleira as elegantes luzes que escolhera para decorar o meu segundo lar.

Corri até casa, cansada do dia até então feliz e destruída pela bomba que acabara de rebentar: tinha perdido o último pedaço da minha infância, a última centelha da minha há pouco falecida avó.

O ecrã azulado gemia a cada chamada. A minha mãe, finalmente, atendeu. “Conta-me o que se passou”, pedi-lhe eu, estudando o seu rosto atormentado através da vítrea conexão habitual. Naquela fatídica noite, a minha fé num Estado de Direito enquanto conjunto de alternativas à violência esmoreceu intensamente.

O roubo – esse grave flagelo, completamente, impune, no país que me viu nascer – tende hoje a agitar algo malvado na minha alma.

Há muito pouco, essa realidade tão estrangeira invadiu [literalmente] o meu lar. Partiram uma porta que julgara intransponível, pilharam a minha História e, sobretudo, ousaram devastar a minha sagrada privacidade.

Estava a centenas de euros do local do crime e o meu nariz, ainda assim, sentia o cheiro agre a suor e droga daqueles que festejaram os despojos da minha vida.

“A justiça tem de ser uma alternativa à violência”, gritavam-me as páginas de apontamentos da cadeira que andava a estudar.

Eu já, anteriormente, certa da hipocrisia que reside nessa falsa possibilidade que é a reabilitação, desatei a chorar furiosa, faminta do sangue e do sofrimento desses gatunos [in]felizes.

Mais de meio ano depois, a resposta desse Estado meigo e justiceiro está ainda por vir. Continuo, contudo, a perceber-me presa na memória das celebrações que assinalei com aquilo que me foi roubado.

A noção de “jóia”, contrária à de “bijutaria”, guarda a inexorável marca de um relação amorosa com esse acumulado de riqueza. Todas as pequenas peças que acompanharam o meu crescimento, queimavam a minha pele, nesse doce contacto com o passado. Hoje, o meu pulso frio mantém-se nu e indignado.

Neste reino de bandidos que se julgam dirigentes, a crescente insegurança agride o que resta do meu bom senso.

“Quem me dera sabê-los mortos, desaparecidos, inexistentes, torturados”, berrei eu à minha atordoada mãe, congeminando, pela primeira vez,  o quão atraente seria a justiça pelas minhas próprias mãos.

Não a desejaria, estou certa, se o Homem capturasse quem deveria; se o Homem responsabilizasse quem violara o meu porto seguro.

“Não vale a pena”, dizia-me o olhar receoso do outro lado do ecrã. “A justiça divina aguarda-os. Só agradeço por não teres estado em casa”, confessava a minha forte mãe à beira de um ataque de nervos.

Sentia-me uma leoa frágil e ruidosa: quebrada e pronta a quebrar. Parecia-me errada a esperança de estar fora desse caminho, arduamente, adquirido que alguns indigentes decidiram tomar como seu.

Borbulhava no meu coração a certeza de que a hipocrisia que enche as bocas podres do povo é muito mais doentia do que pensara. “Os ricos safam-se sempre”, gargalhava ao balcão da loja uma qualquer mulher bucólica. “Os pobres, também, sofrem desse mal: vêm os miseráveis tomar-lhes o esforço de anos sem sequer almejarem uma condenação”, ripostava eu, pronta a desfazer o rosto ignorante e pretensioso dos porcos que se chafurdam nos bens roubados.

No dia em que o crime me chegou a casa, a violência contaminou o meu espírito. Intransigente como sempre, tornei-me amarga na breve mira desses degradados habitantes.

Se o Estado pretende ser a alternativa à violência tem, necessariamente, de se tornar mais sôfrego na sua acção. Se quer que acreditemos na reabilitação, deve fazer a solução espelhar-se não no próspero reincidente, mas no pecador convertido.

Pouco admiradora de santos, estou, contudo, exausta desses parasitas que mamam duas vezes drogas comuns e assassinam dezenas de lares seguros.

Já não quero sangue – pelo menos, não o quero, quando, racionalmente, me coloco contra a pena de morte. Quero agora o sopro diário desses imbecis reduzido a metade.

Talvez seja esta a hora derradeira de agilizar as suspeitas e passá-las a interrogatórios sérios. Todos são inocentes até provem o contrário, mas quando chegará o momento de assumir estas provas como indeléveis marcas de um crime?

Num universo certo de quem o fizera, fecharam-se os olhos e os ouvidos, despertando eu mim um animal selvagem que ruge, plenamente, a favor do agravamento da justiça.

Quando pensarem em dormitar, escutem os ruídos da casa e da porta violada por um vil pé de cabra; ouçam o miar aflito da vossa gata centenária e o choro emotivo da vossa recente e valente cadela; compreendam os passos pesados desses monstros que tudo podem, que se fazem conhecidos e se mostram ricos, sem nunca lhes cair a verdade em cima.

Quando sonharem, esqueçam a possibilidade flagrante de reaver a dignidade: uma vez assaltados, para sempre, internamente, mirrados.

Para ouvir: The aviators por Helen Jane Long

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