Quem muito escolhe, pouco acerta

O realizador dinamarquês, Thomas Vinterberg, oferece-nos, este Verão, a quinta adaptação cinematográfica do ilustre romance de Thomas Hardy, Far from the madding crowd. O filme protagonizado por Carey Mulligan é um elegante retrato da sociedade bucólica do século XIX, que sob a aparência virginal mantém viva a luxúria da paixão.

“Estarei na sessão errada?”, pensei eu de olhos encerrados.

A sala escura enchia-se com os primeiros compassos da abertura de Far from the madding crowd (Longe deste insensato mundo, em Portugal), deixando a certeza de que o magistral trabalho de Craig Armstrong colhe, nesta primeira peça musical, imensa inspiração da cadência dramática de The gravel road de James Newton Howard, que abrira o êxito de M. Night Shyamalan, A vila.

A refinada silhueta de Bathsheba Everdene (Carey Mulligan) preenche, desde logo, a mágica tela, transpirando força, feminismo e poder.

Os planos iniciais, maioritariamente, em contraluz deslumbram o espectador, que a partir daí se julga enfeitiçado pela encantadora fotografia deste filme, pelo  seu extraordinário acompanhamento instrumental e pelas pujantes interpretações de Mulligan e Schoenaerts, que, por sua vez, interpreta o papel de Gabriel Oak, o primeiro cavalheiro a pedir a mão de Everdene em casamento e a ser, consequentemente, recusado.

Far from the madding crowd é um clássico da literatura inglesa dedicado à história de Everdene e dos seus três pretendentes: Oak, o pastor viril, William Boldwood (Michael Seen), o rico agricultor da vizinhança e Francis Troy (Tom Sturridge), o sargento arrojado que provocaria o trágico desenlace.

A fita de Vinterberg apresenta, nos primeiros minutos, essa heroína, tendencialmente, feminista: movida pelo poder, não para o poder.

“A partir de agora terão uma patroa, não um patrão, e eu pretendo surpreendê-los a todos”, declara Bathsheba com um meio sorriso típico e sedutor.

Em mais do que uma ocasião, Everdene recusa casar-se: sente-se dona do seu destino, indomável e, uma vez proprietária da quinta deixada pelo tio, suficientemente rica para não ter de depender de um marido.

A heróina da obra de Hardy é apaixonante. Everdene –  magra e, aparentemente, fraca – assume, facilmente, tarefas que ao mais forte dos homens não deixaria de ser difícil.

Na sua personalidade, parece persistir esse atraente traço feminista que é a crença na igualdade entre sexos e na liberdade de escolha.

“Eu já tenho um piano”, sorri, recusando a proposta de casamento do seu abastado e tímido vizinho, que incluíra a possibilidade “inédita” de possuir tal instrumento.

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Longe deste mundo insensato, está Bathsheba, mergulhada na calmaria bucólica e virginal das zonas rurais inglesas. A vida sóbria deste lado da grande nação de Hardy esconde, contudo, a palpitação sensual da juventude e do desejo.

Francis Troy, o sargento que, finalmente, consegue a mão da protagonista, evidencia esse mundo paralelo que, embora negado, não deixa de sobreviver: a luxúria que, subtilmente, alimenta esse universo feito de milho e lã.

O idílico é perturbado pela atracção fatal que se parece gerar entre Troy e Everdene, embora, rapidamente, a disrupção se transforme numa verdadeira guerra.

É o ciúme o derradeiro responsável pelo nó que a mulher de longos cabelos castanhos ata na sua vida. Casada com um homem que nada sente por ela, que é viciado no jogo e que, progressivamente, destrói o seu trabalho e a sua ousadia, Everdene introduz a fúria e o infortúnio nesta realidade sensata.

Far from the madding crowd é, por isso, um filme obrigatório para os todos os fãs da obra humorística do destino.

A fita de Vinterberg introduz a versão moderna da proposta perturbadora de Hardy, higienizando a dor de errar depois de tanto escolher.

Para ouvir: Opening por Craig Armstrong

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