A escravatura anda por aqui

O v, levemente, cabeludo que separava as suas sobrancelhas desarranjadas denunciava a tensão e o poder que o levariam ao costume sexista de querer viver.

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A mão calejada pousada sobre o ombro, delicadamente, engordado pelo tempo forçava o caminho até ao adro escuro onde repousariam, esclavagistamente, os corpos de Ricardo e Esmeralda.

“Sentemo-nos ali”, ordenou-lhe Ricardo. “… eu tenho uma carta escrita para ti cara bonita…”, cantava o ilustre conjunto no castelo em ruínas que ocupava o centro da pequena praça municipal.

Esmeralda transbordava das calças apertadas pelos três partos habituais. “Vamos passar pela casa da minha mãe?”, perguntou, submissamente, amaciando os traços vincados do camiseiro frágil de um dos espetos encarnados que constituía o seu rebanho.

“Que queres ir fazer à casa da tua mãe? Vais é já para casa. Tenho fome. Espero que quando lá chegar tenhas o jantar preparado”, mastigou Ricardo, pulsando o músculo forte sob a camisola verde-esperança que lhe cobria o peito viril.

As sandálias parcas de Esmeralda retiniam na pedra porosa, ecoando a lágrima mal derramada da violência comum. “Venham, Jorge, André”, gritou, quase docemente, a mulher de trinta e oito anos condenada ao casamento.

“Então, como vai vizinha?”, berrou do passeio a idosa alegre, que, sobre os ombros, trazia um xaile de lã cinza manufaturado, domesticamente. “Vai-se indo, ti marquinhas”, respondeu-lhe. “Dê-me o braço”, estendeu Esmeralda o membro, grosseiramente, arroxeado.

“Vou agora fazer a feijoada para o meu Ricardo. A senhora devia ficar a ouvir aquelas canções tão bonitas”, disse-lhe, desviando o olhar. “E o Manuel? Ficava em casa sozinho?”. Esmeralda pestanejou; o seu coração saltou uma palpitação: a simples conjetura de um atraso significaria a gritaria física e emocional de um exército.

“Como é que vão os teus rapazes? Só te vi com dois”, continuou a velha anciã. “Tudo a querer viver. O mais velho já anda por aí com uma rapariga, já não nos acompanha”, explicou a esposa, cujos 20 anos cumpridos de pena deixaram marcas indeléveis e uma amor estúpido à escravidão.

“Muito bem, Esmeralda. Vai lá fazer o jantar que o meu Manuel não tarda já vem à rua de mão na anca à minha procura”, riu-se, tristemente, Dolores.

A estrada calcetada torcia os tornozelos e imprimia aos caracóis de Esmeralda um balanço desequilibrado e feio. A chave rosnava na entrada magra da porta. A porta de ferro escuro denunciava o abuso.

Os pés frios de Esmeralda ousaram entrar na casa ultrajada de quem tinha sido, há pouco, pilhado. “Levaram-me tudo”, gritou, berrando a mãe-esposa.

Ricardo, a poucos passos do caminho precário da mulher – sempre a poucos passos da sua propriedade – segurou o seu braço, sem lhe bater – nunca lhe batera, apenas a apertara o suficiente para a colocar no seu devido lugar (a casota do cão, certamente) – e levou-a ao canto.

Os olhos azuis-céus do marido-pai-proprietário perscrutavam o edifício mais vazio do que antes. “Faz o jantar, que eu trato disto”, disse-lhe seca e finalmente a figura masculina de um Deus supremo tornado homem omnipotente naquelas quatro paredes virtuais que era o seu matrimónio.

Para ouvir: Night forest por Ilya Beshevli
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