A Terra do Nunca aqui tão perto: presos no tempo

Numa viagem inevitável ao liceu, descobri uma autêntica Terra do Nunca, onde os cintos são, ainda, animais em extinção e o desmaquilhante uma raridade desconhecida.

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A calçada portuguesa corria sob as solas quase inexistentes das sandálias que me cobriam os pés. O odor forte a tabaco, atum e gasóleo enchia o pequeno parque de estacionamento, onde os jovens quase delinquentes se asfixiavam com risos, baguetes e dúvidas sexuais.

“Vim levantar um certificado”, confessei ao segurança especado no topo da distopia constante que caracteriza estes últimos três anos de ensino obrigatório.

O portão ia miando a entrada dos rebeldes transformados em alunos levemente aplicados.

Passavam elas com os mesmos cadernos de capa dura berrante, eles com as mesmas calças pelos joelhos. Desfilava a manada cega pela luz ultrajante da prótese tecnológica para permanente correspondência.

Multiplicavam-se as barbas por fazer, os cabelos oxigenados, as ancas bailantes, as cabeças mergulhadas no vácuo da adolescência.

Subi as escadas tortas que conectam os andares do jardim sem nunca desviar o olhar do edifício sempre imponente que outrora me acolhera todos os dias.

Se a fachada, esse imenso quadrado laranja-ferrugem, se mantinha inalterada, o interior rugia surpreendente, numa demonstração pálida de uma outra série juvenil que populou as horas vagas da minha vida passada.

“Ele já te respondeu?”, pestanejou a alta rapariga cujos olhos carregavam quilos desnecessários de lápis preto barato. “Vamos sair amanhã”, mostrou-lhe a amiga as amígdalas, no elegante mascar de uma pastilha elástica amarelada.

O áspero bater dos meus pés nos tijolos que cobrem o corredor exterior ia distinguindo o meu andar da corrida emborrachada daqueles dois anos atrás.

Engoliam-me, matavam-me e assombravam-me, aqueles seres tão convencidos da sua originalidade e tão enterrados no fado comum de todas as criaturas em transição.

“Posso ajudar?”, perguntaram-me os olhos rodeados de azul e loiro da senhora presa no cubículo das folhas e recibos. Ditei-lhe uma lista de itens a comprar. Ela esqueceu-os, enganou-se, fez-me repeti-los: sempre a mesma canção, ainda que galgados novecentos dias.

Passeei-me pelos momentos vividos nestas paredes. Escapei, deixando ao guarda a nota de visita e regressando à descida subtil de basalto.

Do outro lado da rua, esperavam pelo autocarro duas moças de umbigo à mostra e maxilar deslocado. Deste lado, revi colegas distantes e antigos presos nos tempos que vivemos ontem.

Apanhei as minhas vestes desadequadas – futuristas – e lancei-me à estrada, indignada não pela parada dos mamutes recorrentes, mas por esse poder monopolista que o secundário conserva.

Parados no tempo, insensíveis à natureza fugidia do tempo e à massiva e sufocante civilização que a poucos metros dali prolifera.

Nos dias em que toda a minha luz se reduzia a este monstro rechonchudo e curvilíneo, também eu batia o cartão, sentava-me nos tijolos castanhos e gargalhava uma qualquer piada tonta.

Nessas alegres e ingénuas horas, sentia ronronar o medo de se estar a esgotar este conforto.

No último segundo de ficção, senti a pedra de lavoura fria sob as minha pernas nuas pelo Verão e comecei a crescer.

Ao meu lado, as centenas de visitantes que insistiam em ficar-se pelos degraus gastos decidiram-se por esse infame ano de 2013: insuperável, longo e imortal.

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4 pensamentos sobre “A Terra do Nunca aqui tão perto: presos no tempo

      1. Ah isso não é problema algum aahahahha a minha inspiração é a vida de todos os dias (pelos olhos preocupados de uma estranha). Fico contente por alguém gostar de descobrir este mundo adulterado. Obrigada 🙂

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