O pátio das cantigas: a portugalidade é pimba?

O pátio das cantigas regressa ao grande ecrã pelo olhar peculiar de Leonel Vieira. O retrato fiel de um Portugal, cultural e socialmente, degradado é protagonizado por Manuel Guilherme, César Mourão e Dânia Neto, que interpretam versões infelizes das deslumbrantes personagens originais.

“Foi, por isso, que escolhi trazer Shakespeare aqui para o pátio”, comenta Carlos (Rui Unas), o bombeiro e aspirante a actor que finge ter olhos azuis e persegue Amália (Sara Matos), a jovem vizinha que quer gravar um disco e aparecer na televisão. “E ele aceitou?”, esbugalha os olhos Evaristo (Miguel Guilherme).

O pátio das cantigas de Leonel Vieira é o primeiro projecto cinematográfico de uma trilogia que promete reinventar os clássicos que marcaram os brilhantes “anos d’ouro” do cinema nacional.

Em 1942, Francisco Ribeiro realizava a icónica viagem ao coração alfacinha, que agora serve de mote ao filme protagonizado por Miguel Guilherme, César Mourão e Dânia Neto.

A fita original conseguira uma representação genuína da vida nos bairros populares de Lisboa da altura. Hoje, esse pátio regressa, ao grande ecrã, mas as cantigas são outras.

O galante Evaristo, interpretado por António Silva, nos anos 40, e por Miguel Guilherme, na nova versão, perde a naturalidade que garantira a sua elegância e humor.

Neste novo Evaristo, tudo é forçado: a boca que se arregala muito, a pronúncia que se arrasta e irrita e a ingenuidade atordoante de um homem de meia idade que quer namorar Rosa (Dânia Neto), a doce vendedora de sapatos a rondar os 30.

Neste novo pátio, passeiam-se, predominantemente, relações disfuncionais, que ocupam o volumoso enredo paralelo. As piadas de tasca são o prato principal nestas intrigas secundárias que, progressivamente, vão roubando a atenção do espectador.

No final, o desenlace da história de Rosa, Evaristo e Narciso (César Mourão) passa despercebido perante o perturbador ruído que todas estas flagrantes apostas na portugalidade pimba produzem.

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Há, porém, neste O pátio das cantigas uma fluidez interessante, muito bem-vinda ao cinema português.

Há alguns meses, Os Maias de João Botelho colocara-nos em frente a um representação teatral e, pobremente, compassada. Morria, então, a minha esperança na naturalidade das produções cinematográficas nacionais.

No filme de Vieira, nada emperra, embora seja esta a última característica que o espectador enfatiza nesta triste tentativa de imitar o inimitável.

Há uma cor bonita e uma escolha atraente de ângulos neste remake, sem nunca se conseguir recuperar o humor e a graciosidade que povoaram a Lisboa de outros tempos.

Na escuridão asfixiante da sala de cinema, espreitamos a transformação de um clássico intemporal numa verdadeira telenovela.

O senhor de meia idade que se ri a bandeiras despregadas ao meu lado não pode discordar. Gargalha com as típicas cenas de cama que, actualmente, enchem o riso nacional; explode com o exagero de Evaristo e de Carlos; não se contém com a língua solta da estereotipada Amália.

Atónita perante a multiplicação de piadas quentes e mal pensadas, começo a ponderar se esta não será uma eficaz representação da vida lisboeta dos nossos dias.

Talvez Vieira não tenha sido o responsável pela morte flagrante da obra de Ribeiro – é que nem o nome deviam partilhar. Talvez tenha sido a própria evolução das gentes que hoje populam o ritmo cardíaco da nação.

O bairro mudou, porque mudaram os portugueses e, nesse sentido, o realizador d’ A selva concretiza, devidamente, o desafio: O pátio das cantigas é o retrato fiel de um Portugal pimba, que toma as telenovelas por ambição e a cerveja por companhia.

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Não é que a portugalidade mereça crítica – cada um vive como quer, nesta nação de horários nobres enchidos pela ficção nacional e pelo sensacionalismo – mas a destruição de um clássico como este faz doer o coração, a alma e cada átomo do corpo do mais simples apreciador de [bom] cinema.

Esperemos que a reinterpretação d’ O Leão da Estrela (um dos meus clássicos nacionais predilectos), também, a ser realizada por Leonel Vieira e prevista para o Natal nos traga mais satisfação e alento.

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2 pensamentos sobre “O pátio das cantigas: a portugalidade é pimba?

  1. Vejo, sobretudo, o destaque dado a alguns atores que o não são. Dizem-se humoristas, dizem-se atores,… Dizem-se!
    Claro, o resultado só pode ser este.
    Os meus alunos (10 a 12) adoram! Então quando me conseguem enganar e apanham algum dos filmes do género no YouTube lol E temos o professor: -” Isto não se faz à mesa. (…) Isto é deselegante! … Se querem ter uma namorada a sério não vão fazer isto. (…) Expliquem-me, qual a piada dos palavrões? (…)” Até que, rendido… “Mas o que é que eu não entendo no filme e que vocês entendem? Socorro!”

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    1. AHAHAHA Os meus exactos pensamentos… e ver os senhores ao meu lado a rir como se não houvesse amanhã, confunde-me.
      Enfim, na verdade, muito me confunde nesta nova geração de artistas que, não sendo totalmente sem mérito, seguem pelo caminho da audiência – e do riso – fácil, contribuindo para a progressivamente deseducação dos públicos.

      Tenha uma boa sexta-feira 🙂

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