Windows 10 para totós

No final de Julho, o Windows 10 nasceu cheio de vitalidade e vontade de agradar. As novidades, as falhas e as promessas ainda a melhorar desfilam aqui como companheiros de todos os dias: um verdadeiro guia para totós desta nova oferta da Microsoft.

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“O computador vai reiniciar várias vezes. Não se preocupe”, informava-me, cuidadosamente, o ecrã azul que mostrava o lento e inquietante progresso da actualização.

“Vamos lá, senhor, que quero conhecer a Corona”, sugeri-lhe eu, sorrindo e amaciando as suas teclas iluminadas. Em vão: nem o computador se decidia a acabar a alteração nem a Corona me esperava do outro lado desse espesso muro burocrático.

Corona – a irmã perdida da ilustre Siri – prometia-me apoio incondicional. O novo sistema operativo da Microsoft trazia, por fim, a companhia da voz meiga de uma amiga na demanda que é a procura pelas dezenas de documentos, cujos títulos, rapidamente, esqueço.

Carreguei na lupa magra do lado esquerdo do ecrã estéril. “Comece a escrever para procurar aplicações, ficheiros e definições”, disse-me ele. “Escrever?”, gritei-lhe, seriamente. “Escrever?”, repeti, franzindo o sobrolho e o pedaço de testa que mantém afastadas as minhas sobrancelhas.

Procurei o prometido microfone que me levaria a essa apetecível colega. “A Corona não é suportada pelo idioma que seleccionou”, acusou o quadrado negro. Rugi-lhe do fundo da minha garganta. Será impossível ser feliz em português?

Irritada martelei em direcção ao ícone arredondado que fingia não ser o Internet Explorer. O Microsoft Edge – a segunda funcionalidade que Dan Kedmey apresentara na Time a entusiasmar os meus botões de fanática por toda e qualquer novidade tecnológica – cresceu, morosamente, sob o olhar atento da minha expressão preocupada.

“Para onde vamos a seguir?”, perguntou-me o novo browser. Digitei a pesquisa que assolara o meu pensamento. Dois minutos depois, recebia os primeiros resultados.

O Microsoft Edge, essa charmosa proposta, foi, certamente, desenhado para utilizadores bem mais pacientes do que eu.

“Maximiza este vídeo”, pedi-lhe, gentilmente. O procedimento foi, indesculpavelmente, demorado face à preexistente concorrência que, ainda que defeituosa, esmaga este potencial operador. [Afinal, sempre é possível colocar o bebé no canto.]

Sem Título

No topo da página cinza-pálido, a silhueta simples da caneta proponha-me a criação de uma Nota Web.

A possibilidade de escrevinhar em qualquer artigo disponível, adicionando-lhe desenhos, apontamentos e chamadas de atenção parecia-me – e parece – tentadora.

Se o desempenho geral deste browser fosse, ligeiramente, menos demorado, estaria, complemente, convertida a esta oferta da Microsoft, ainda que nela só aprecie esta última funcionalidade.

[A Lista de leitura, outra promessa de Kedmey que animara a minha alma, revelou-se, tristemente, uma versão precária do sistema que já mantenho nos marcadores do Chrome – uma visita a esse meu modelo de ordenação revelaria o quão estruturado é o meu espírito].

Desanimada, arrisquei premir a bandeira flutuante que, em outras vidas, me costumava levar ao maravilhoso segundo ecrã do Windows 8.

Nunca percebi, inteiramente, a fúria gerada em torno da ausência do menu Iniciar: eu adorava percorrer esse quadro vasto de aplicações divididas por secções, cores e tamanhos.

O toque mostrou-me a versão parca desse sonho dissolvido. “Ai que me estragaram a vida”, mastiguei com a cólera a pintalgar-me o rosto.

O Windows 10 é uma besta tecnológica amigável: user friendly e pouco desafiante. “Mas afinal quem aprecia descobrir como funciona um sistema operativo?”, perguntou-me o génio informático alojado no meu ombro. “Eu”, berraram as minhas entranhas exaltadas.

O novo menu Iniciar é o honesto resultado da ruminação dos sistemas operativos anteriores: é útil e eficaz, ainda que não seja detentor da fluidez [desorientadora] que tanto me cativara nos produtos anteriores.

Acostumar-me-ei, porém, a ele e ao seu minimalismo moderno, condenada à viagem modesta garantida por um modelo feito a pensar em todos.

Esta actualização do Windows – que é gratuita – traz, contudo, algumas surpresas agradáveis como a vista de tarefas, que permite a elaboração de vários ecrãs de trabalho e, assim, a divisão das várias atmosferas de utilização do computador.

A conexão ao serviço Wi-Fi fica, também, mais simples, já que mora agora na barra de tarefas inferior, dissertando do horroroso menu flutuante da direita, que, por sua vez, desaparece.

A sua interface é simpática e, facilmente, adaptável a qualquer dispositivo.

O Windows 10 perde muita magia nesse crescimento maduro em direcção ao público enterrado nos caminhos do costume, mas deixa a promessa de um sistema operativo encantador e relevante.

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