Não fales com estranhos

Sobre a imensa tela cinza-pálido, voavam enormes continentes de esperança. As massas quase esbranquiçadas fugiam-se em direcção ao mar e àquele horizonte desmaiado que assinalava mais um triste falecimento. Sofia, então, rugia, no momento em que enterrava o seu punhal no peito podre do imperador dos céus.

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No dia em que Sofia nasceu, a tempestade assaltou-lhe o passado.

Descia, lentamente, as escadas flutuantes que ligavam a sua nuvem-casa à avenida principal, quando sentiu desabar o palco de ar e viu o vento roubar-lhe os pais.

Os seus imensos olhos azul-morto acusavam a dor profunda de ver desaparecer, para sempre, um par de luzes tão bonitas.

Nascia-se adulto, neste céu: comandante de um reino próprio e destinado à orientação irrevogável da nuvem que, à nascença, se recebera.

Esses continentes em próspera reprodução escravizavam os habitantes semi-humanos desta civilização quase bárbara.

“Um ramo de hortelã”, disse, por fim, Sofia, percebendo o contacto gelado do excesso de humidade que lhe descia pela maçã do rosto. “A menina está bem?”, perguntou-lhe a idosa desterrada para aquela grande alameda de refugiados.

Sofia escondeu-lhe a cara. Não queria revelar os seus sentimentos a quem nem o cumprimento de um fado tinha sido possível. “Muito bem. Obrigada”, sorriu-lhe, secamente, sentido as clavículas gritarem-lhe de dor.

Tremia a estrada gasosa, ameaçando ruir com aquela fúria temível de um imperador desprovido de humanidade. “A este ritmo, ficam as nuvens sem guias. Morremos todos não tarda nada”, pensou, friamente, observando as dezenas de homens engolidos pela lacuna divina.

O rancho de nuvens comandadas pelos aladanos miava, pianinho, face à crescente força do rebanho de ovelhas tresmalhadas, que, sem dono, corriam em direcção ao vale das montanhas férteis.

“Por este andar, não duramos muito. Temos de arranjar mais filhos”, gritou-lhe a vendedora, no ruidoso momento da extinção da tempestade. “Já passa. Não se preocupe, que nós, os  guias, cuidamos de tudo”, sorriu-lhe, sarcasticamente: má.

As escadas mostravam-se frágeis: o furacão levara-lhes a solidez de outros tempos. Os joelhos de Sofia sofriam a dor de subir esses pedaços vulneráveis de ar cristalizado.

“Isto não pode continuar. Ele anda a matar-nos sem cessar. Este plano está só a destruir o governo”, ouviu sussurrar a silhueta baixinha no topo das escadas. “Que podemos fazer nós?”, questionou o homem ruivo, cujos olhos verdes detectaram a presença intrusiva de Sofia.

“Temos companhia”, avisou. A figura feminina rodou as parcas ancas e encarou a estranha com tremenda irritação. “Mais uma inocente ingénua. Veremos até quando dura. Traz hortelã, vês? Eles, ainda, acreditam no néctar da resistência”, explicou, frustrada, Matilde.

“Sem ele perdemos leveza e estamos a condenar o céu, não?”, duvidou Sofia perante aquela declaração tão curiosa. “E acredita mesmo nisso?”, gargalhou, abertamente, Matilde.

“O imperador Roi mata por capricho, não por necessidade. Não há superavit algum…”. “Não há superavit?”, gemeu Sofia. “Mas os meus pais…”.

O imperador, esse monstro sereno de ar e cinza, dissera-lhes que os filhos tinham de nascer e os idosos de abandonar o império, já que afinal o peso em excesso destes últimos estava a forçar a perda de altitude e a escassez dos primeiros estava a deixar sem comandantes as nuvens, que, assim, se juntavam a essa enorme irmã gémea malvada que era a força contrária.

O néctar da resistência – dois copos de água, cinco folhas de hortelã, três colheres de ouro em pó (um ingrediente raríssimo em virtude da ausência da organicidade necessária para tal) e um punhado de ar – garantia que os recém-nascidos se mantivessem leves por mais tempo e, em alguns casos, conseguia mesmo diminuir o peso desses calhaus de tempo que eram os mais velhos.

“Não há excesso algum. O Roi fá-lo para se divertir à vossa custa”, insistiu Matilde. “Levem-me à nuvem-capital e termino as vossas queixas”, pediu Sofia, cujo olhar ganhara mais malícia do que nunca.

“Quando nasceste?”, perguntou esse homem anónimo que se conservava ao lado de Matilde. “Há algumas horas”, esclareceu a recém-formada semi-humana. “Mantens, ainda, o elo inexplicável com esse pai grandioso que é o imp…”. “Nem ouses tratá-lo assim”, resmungou Matilde. “Ainda manténs o elo inexplicável com Roi”, corrigiu o homem.

“Pensa nele, sente este punhal nos teus dedos delicados, apalpa o seu coração com a tua alma e termina a tua vida”, concluiu.

“Isto é algum trocadilho? Como pode o meu suicídio matar o imperador?”, ousou Sofia, a refulgir de ironia. “Os recém-nascidos podem suicidar-se sem afectar Roi, mas se ao fazê-lo pensarem, claramente, nele e usarem um destes punhais dos guardas da sede da capital, conseguem chegar-lhe ao coração”.

O vento ladrava. Os olhos de Matilde desafiavam-na. Sofia não o podia evitar: o orgulho de vingar a morte dos progenitores e, principalmente, a ocupação do lugar de mártir garantiria-lhe grande reputação.

Sentiu as unhas mal cortadas raspar na prata esterlina do punhal. O diamante incrustado na bainha fez-lhes cócegas. Sentiu o ventrículo saltar uma palpitação. O sangue invadia as suas vestes de recém-bem-vinda. Lamentava ter de sujá-las, mas tão pouco tempo lhe restava, que já nem a cor escura da roupa que trazia conseguia discernir.

Sobre o ar manchado, Sofia jazia frente ao par sorridente que escarnecia de tamanha ingenuidade. Matilde galgou as escadas e, a tiro, dizimou a avenida principal. Estava a guerra ainda a começar.

Fotografia por Isabel Patrício
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