Bom para ti, não para mim ou a inveja

Levados a acreditar que a excelência é o roubo do desejado lugar do outro, desde cedo cedemos à corrupta cobiça invejosa. Será, afinal, esta uma tendência tão má? Ou será a solução à arrogância pestilenta do Homem?

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Junto as palmas macias das minha mãos e estico, imensamente, os meus braços doentes. A minha coluna curvada estala. A base do meu crânio grita de alívio: horas a fio de ciúme não lhe fizeram favor algum.

“A inveja é o mais subtil e corrosivo pecado”, diz Bartholomew Bland, diretor do Hudson River Museum, ao The New York Times.

Pelas suas galerias passarão representações flagrantes da presença desse alimento pecaminoso nos tradicionais contos de fada. Inveja: um pecado, sete histórias promete desvendar essa arquitectura podre que, desde cedo, nos servem ao pequeno almoço.

Jamais me assumi enquanto praticante de tal pecado. Ensinada a devotar o melhor de mim a cada empreitada, cresci encapsulada numa campânula de privilégio e sacrifício que me esfolava viva e mantinha concentrada.

Ao meu lado, cresciam roseirais maravilhosos que nunca soube aproveitar, já que, irreversivelmente, o meu caminho passava sempre três dedos ao seu lado.

“A inveja é uma tendência muito feia”, confessaria-me, certamente, a minha mãe, cujos cabelos grisalhos parecem nunca ter conhecido esse género malfadado de ciúme.

“A inveja é o motor inexorável das nossas vidas”, explicaria-lhe eu, já de pijama, mas ainda com os poucos quilos de maquilhagem aplicados quase diariamente.

Jamais me assumi enquanto praticante de tal pecado, mas não mora o ciúme mesmo ao seu lado? E não é este último a transpiração natural de um quotidiano pouco isolado?

Não é que passeie pela rua, desejando aquele nariz, aquela bolsa ou aquele par de sapatos. Não é que me sente num auditório, almejando aquela resposta ou aquele relacionamento. É que a estrada é demasiado nebulosa e os outros são sempre uma desejável, mas inquietante, fonte de orientação.

Nos preciosos – mas, decididamente, raros – momentos em que abuso desse guia, tentanto asfixiar-me nos passos que dão os outros terráqueos, mergulho-me sempre no grande mantra que, recentemente, me foi oferecido: “Good for you, not for me” [“Bom para ti, não para mim”], gargalha, seriamente, Amy Poehler em Yes, please [Sim, por favor] – um livro cuja recomendação é mais do que imperativa.

Demasiadas vezes me senti a estrela condutora daqueles que se abeiravam do meu carácter excêntrico. A admiração que, rapidamente, dava lugar a uma espécie odiosa de imitação cegava-me os sentidos. Nunca me percebi menos amada do que quando me vi repetida ao meu lado.

Essa cobiça invejosa que vi brotar nas solas ásperas do meus pés, deixou-me a certeza de que a originalidade é o único antídoto a considerar para vencer, nestes becos gastos pelo costume.

Afastei-me, sofregamente, dessas cópias inocentes que cediam à facilidade do simulacro em direcção ao meu próprio fantasma de replicação barata.

O intervalo oco entre as minhas costelas sente, penosamente, a vitória grandiosa de qualquer concorrente. Os meus sonhos ainda que não frustrados – por vezes mesmo prósperos – arrepiam-se perante os sorrisos perolados dos triunfos alheios em missões que nem sequer me interessavam.

O ciúme é este ato natural de comparação que nos empurra para a base da pirâmide e nos obriga a definhar, lentamente. O ciúme é o ocasional mestre hegemónico que perturba sem pesar esta luta sincera até sermos capazes de o admitir enquanto presença obrigatória, mas não monopolista.

A bela rainha madrasta da jovial Branca de Neve – um dos sete contos explorados por Broom, nesta exposição – guardava em si mesma o antídoto para a sua inevitável destruição.

Acreditar-se a mais bela e reconhecer-se desafiada exigiria, somente, o ato humilde de se perceber incrivelmente, mas não ineditamente, bonita.

Afinal, a inveja, ainda que pecaminosa, pode ser, de facto, o machado necessário para quebrar essa redoma de arrogância que nos mantém iludidos.

Olhar para o lado, perceber-se inferior e desejar, arduamente, aquela posição marca o início de um novo caminho através do qual jamais concretizaremos esse lugar não tão distante, já que pelos nossos peculiares pés chegaremos sempre à exacta paisagem pela qual a nossa alma suspira.

“Bom para ti, não para mim”, é mais do que um lema vazio: é a encarnação honesta do progresso espontâneo dos nossos fados. Quebrem esses espelhos, sejam felizes.

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