Estórias imperdíveis: Cecil, o leão; não a alcateia

Cecil, o leão fez manchetes em todo o mundo. A atenção gerada em torno da sua morte ilumina o grave dilema do negócio da caça turística em África, mas a sua enegrecida juba tende a ofuscar o verdadeiro cerne da problemática. Estará a campanha #CecilTheLion à altura do desafio?

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“O irmão dele, Jericho, está aqui, mas não é tão bonito”, confessa John Rodriguez, presidente da Força de Conservação Zimbabuana , ao The globe and mail.

A morte de Cecil, o leão que se tornara na estrela do Parque Nacional de Hwange, no Zimbábue, tem suscitado mais comentários e notícias do que qualquer outro acontecimento, nos últimos tempos (os 2000 migrantes ilegais detidos, quando tentavam passar o túnel sob o Canal da Mancha receberam, comparativamente, um destaque bem menor nas páginas nacionais e internacionais).

Cecil tinha 13 anos, estava a ser estudado pela Universidade de Oxford e gerava milhões de dólares, todos os anos.

O seu abate parece ter trazido à ribalta o negócio da caça turística de animais selvagens, em África. Poucos dias depois da sua morte, cinco elefantes foram assassinados no Quénia: poucas palavras lhes foram devotadas.

Anualmente, 105.000 animais selvagens são vítimas deste mercado turístico em franco crescimento, segundo a Associação Internacional para a Conservação da Natureza. Todos os anos, morrem cerca de 640 elefantes, 3.800 búfalos, 600 leões, 800 leopardos, nas mãos dos visitantes.

A chacina de Cecil não é um caso inédito; o seu mediatismo não pode ser justificado pela sua excepcionalidade, mas pelo protagonismo económico que o leão assumia na reserva que ocupava.

A caça destas espécies é, de facto, legal em alguns países da África subsariana, nomeadamente no Zimbábue, na Tanzânia, no Botswana e na Namíbia.

Walter Palmer terá pago 50.000 dólares para segurar o arco e flecha que tirariam a vida a Cecil. Para os governos africanos em crise, esta prática é mesmo o impulso económico, desesperadamente, necessário.

“Este género de caça ameaça muitas espécies em desaparecimento, na medida em que é mal gerido”, confirma a CNBC.

Nos últimos 19 anos, de acordo com os dados da Liga Contra os Desportos Cruéis, mais de 9.000 ursos, 2.500 leopardos e 4.000 elefantes africanos morreram na mira dos visitantes europeus, que, no regresso a casa, levaram, na bagagem, pedaços das suas presas: verdadeiros souvenirs destas “extraordinárias” experiências que têm enchido os bolsos dos milhares de guias turísticos dedicados a esta actividade.

Sem Título

No Parque Nacional de Tsavo, no Quénia, ao assassinato turístico junta-se o roubo de marfim na ameaça ao elefante, cujo risco de extinção é maior do que o da espécie de Cecil.

Entre 2010 e 2012, mais de 100.000 exemplares foram abatidos face ao aumento da procura de marfim, no mercado asiático. Aí as suas presas chegam a valer, por libra, mais de 1.000 dólares.

A morte dos cinco elefantes que sucedeu a dramática eliminação do leão do Zimbábue  segue o assassinato de 30 exemplares em 15 dias no Parque Nacional de Garamba, no Congo, no início deste ano.

“O tráfico ilegal da vida selvagem é hoje um mercado que ronda os 10 biliões de dólares anuais”, sublinha o The Independent.

Resta agora apurar se o escândalo gerado pela morte de Cecil conseguirá alterar a legislação africana que permite o abate destas espécies. O ocidente está atento ao desenlace desta história movida, assumidamente, mais pela popularidade do leão em causa do que por uma constatação recente da grave expansão destes negócios. 

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5 pensamentos sobre “Estórias imperdíveis: Cecil, o leão; não a alcateia

      1. É uma triste e verdadeira realidade. Cecil é quase uma gota no oceano. Gostava de entender o espírito destes caçadores, o prazer em matar animais, de os deixar em sofrimento,… Mas nem os caçadores que existem no nosso país entendo!
        Bom domingo.
        Um abraço.

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      2. A mim também não, Isabel. A Natureza tem mecanismos de autocontrole. Neste momento, na France 4, assisto a um programa de predadores que mostra alguns desses mecanismos. É curioso: o que a televisão francesa apresenta em excesso (?) de documentários e séries, a nossa é de todo sensacionalista, nos noticiários, programas das manhãs e tardes e esqueceu que se os portugueses fazem novelas, também são capazes de fazer cinema e séries. Dos documentários não adianta falar. Por outro lado, e o que vejo é a TDT francesa e inglesa, neste último caso não recebendo alguns canais dado exigir uma antena de enorme diâmetro, as séries apresentadas, são aqueles que aqui, no país com enormes recursos económicos, temos que pagar para ver nas Fox, AXN ou AMC…
        Fugi ao tema, sem querer, mas tamanha é a indignação. Porque seremos sempre assim: pequeninos. Bom domingo.

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