“A verdadeira história” de um homem duplicado

Rupert Goold estreia-se como realizador em True Story: uma sofisticada leitura da história verídica de Michael Finkel, um jornalista caído em desgraça, e Christian Longo, um assassino condenado à morte.

“O nível mais alto é a verdade”, grita a editora do The New York Times a Mike Finkel (Jonah Hill). O repórter fita-a, irritado. “Pões-nos no terreno para caçar”, explicam os seus enormes e exasperados olhos.

Na vasta sala de reuniões, Finkel vê a sua carreira, fatalmente, ameaçada. Três anos, dez capas e a manufactura de uma derradeira estória completam o reportório deste jornalista que trabalha demais, ambiciona imensamente e ousa substituir a deontologia da sua missão pelo sensacionalismo.

À primeira vista, True story (A história verdadeira, em Portugal) parece assemelhar-se ao fascinante desenlace de Shattered Glass (O preço de uma verdade) de Billy Ray (2003).

A ambição por uma boa cacha levada ao extremo e a inconsciência do limiar da criatividade, que caracterizam ambas as fitas, são, contudo, apenas as premissas desta enorme obra de Goold.

Mike é demitido: desterrado para junto da sua esposa, num cenário gelado e encantador. Aí enfrenta-se a si próprio e aos seus fantasmas perante o evidente fracasso em que se tornou a sua vida.

“Queria recolher um comentário seu ao caso Chris Longo”, solicita um repórter regional. Mike pesquisa-se: os primeiros resultados? O mediático assassino de uma família inteira que usurpara a sua identidade.

Isolado e sem trabalho, Finkel não pode anestesiar aquele impulso quase inato do grande furo. Visita Longo (James Franco), arranca-lhe a sua estória e, finalmente, consegue o contrato literário que o retiraria da vergonha jornalística.

True story não é, todavia, essa anunciada viagem pelo universo da profissão de Finkel. É, antes, um esplêndido e detalhado retrato do narcisismo apurado de um assassino e de um repórter que, afinal, tinham muito em comum.

Mike segue até à prisão onde Longo está encarcerado para apurar a origem desse roubo; Longo fingira ser o repórter do prestigiado jornal para se certificar que a sua estória seria [bem] contada. Esta relação simbiótica de dois homens mergulhados no seu próprio umbigo é nada menos do que extraordinária.

As actuações de Franco e Hill surpreendem. Os sucessos cinematográficos que fizeram os seus nomes passam muito ao lado da mestria desta fita, na qual brilham, intensamente.

James Franco preenche os sapatos de um manipulador experiente que transpira bondade, inocência e terror. Nos olhos de Longo, reluz uma perturbadora certeza: este não é homem comum.

Na hora e meia que o filme de Goold oferece, oscilamos entre a completa aceitação da inocência de Longo e o profundo terror perante a incómoda conclusão da sua culpa.

Chris não é, somente – como se não bastasse – um assassino: é uma máquina de eloquência, magia, manipulação e maldade que assusta e seduz.

Finkel procura-se nesse condenado, examinando-o, exaustivamente. Em True story joga-se esse velho truque da identificação como vestígio de um homem duplicado que, de facto, não passa de um par de narcisos ansiosos por se imporem, hegemonicamente, na vida alheia.

As personagens de Goold e Kajganich fazem jus aos seus actores: são bem concretizadas, modeladas e envolventes.

Em todos os minutos, somos impelidos na investigação dos pormenores mais íntimos destas construções humanas, sofrendo com a descrição do crime, mas ficando deslumbrados pela sinistra aura que cerca estes homens.

A história verdadeira é, por outro lado, uma excelente composição fotográfica e musical.

A multiplicidade de grandes planos, as sombras, a coloração e a minúcia da fita contribuem para a intriga com uma beleza impagável. As raras, mas fabulosas cadências sonoras de Marco Bertrami criam a atmosfera certa para apreciar este filme.

Do grande ecrã para a vida real, Mike e Chris continuam a encontrar-se todos os primeiros domingos de cada mês. A impressionante dependência que sustenta este filme parece não ter, ainda, arrefecido, mesmo após oito anos passados no corredor da morte.

Finkel e Longo são, genericamente, uma actualização movida pela egolatria de Capote e Perry Smith, imortalizados, por sua vez, no clássico A sangue frio.

 

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