Esta vida é um piscar de olhos

Ao longe, a silhueta da civilização em desaparecimento marcava o início de um mergulho esmagador na escuridão sufocante da uma da manhã. As pálpebras de Catarina piscavam, ansiosas. No próxima bater de pestanas, estaria a condenar um desconhecido a um fim aterrador.

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Ao seu lado, sobre a fronha, imaculadamente, branca estava derramado Sebastião. O crepúsculo dançava-lhe nos cabelos loiros abundantes. A respiração lenta e regular impelia-a num constante sobe e desce delicioso.

Catarina estava entregue àquele peito escaldante e ao cheiro viril da barba, recentemente, aparada.

Demoras muito?”, perguntou, carinhosamente, ao perfeito amante que, há um mês, não passava de um completo estranho.

Estás com pressa?”, ripostou Sebastião, abrindo, imensamente, os seus olhos castanho-avelã, que insistiam na maravilhosa transparência de um pigmento ao Sol. Catarina levantou-se e fitou-o, entusiasmada. “É hoje”, disse ela.

As suas costas nuas brilhavam na escuridão invadida daquele quarto familiar. Sobre os ombros, o curto comprimento dos seus cabelos avermelhados gritavam, ferindo a vista e a tranquilidade de Sebastião. Àquela hora, quando o dia havia pouco se deitara, Catarina estava mais atraente do que nunca.

Levas-me ao aeroporto?”, tentou a mulher de 30 anos. “Não posso”, confirmou, distraídamente, Sebastião, agarrando-lhe o braço. “Prometo que, quando voltares, estarei aqui – exatamente, aqui – à tua espera”, sorriu-lhe, diabolicamente.

Num ápice, Catarina perdeu-se na pequena casa de banho, fechou os olhos e conseguiu que aquele homem fugidio a levasse até à porta de embarque.

Esse seu dom nunca lhe dera tanto jeito como na vida adulta: batia as pestanas, sentia o coração agitar-se e o ronronar do felino aninhado na boca do estômago – geralmente, conhecido por medo – imaginava a realidade em que preferia viver e, automaticamente, lá chegava, sem dúvidas ou condições.

Espreitou a cama sobre a qual estava, ainda, deitado Sebastião. “Amor, quando vamos para o aeroporto?”, insistiu. “Daqui a uma hora, se já estiveres pronta, o que julgo ser uma missão impossível”, gargalhou o homem musculado.

Catarina bebericou desse riso imenso, certa de que, naquele momento, alguém estaria em lágrimas ou devotado à certeza de que o seu relacionamento estava condenado.

A lógica era simples, descobrira ela, na sua juventude perante a vitimização sucessiva da sua melhor amiga: Catarina não conseguia mudar a sua realidade, mas substitui-la pela pertencente a alguém não muito distante.

O chão estéril do aeroporto proporcionara o espelho ideal para a emotiva despedida: Catarina rumo à entrevista que sempre sonhara, Sebastião na direcção de uma ausência, terrivelmente, sentida, muito atípica num casal tão recente [trocar de universos significara saltar etapas, crescer, sofregamente, e forçar sentimentos que ainda nem se tinham insinuado].

O algodão sintético e áspero da cadeira do avião acomodara o seu coração despedaçado como quem conforta um par de ovos numa cesta de palha, na Páscoa.

Catarina sentia-se, imensamente feliz e grata por aquele poder tão inédito quão maravilhoso e sem consequências.

Por favor, apertem os cintos e endireitem as costas das cadeiras para a descolagem”, avisou a voz mal preparada da chefe de cabine.

Ao longe, as artérias luminosas da metrópole deslumbravam-na. As articulações de luz doirada, por vezes, entre-cortadas por troços azuis lembravam um conjunto infindável de conexões sinápticas. Era fascinante sentir a cidade de tão alto; era arrebatador descobrir a inexistência de vida, nas largas manchas escuras de território que rodeavam essa cadeia tão complexa.

O ruído quase afónico que indicara a possibilidade de passear pelo avião levara-a ao lavatório, ansiosa pelo sedutor momento em que se viria livre de toda a maquilhagem. “Uma noite bem dormida trar-me-á um actuação esplêndida”, pensou até perceber o grave tremor que o cubículo amplificava.

Estamos a ter dificuldades técnicas. Por favor, regressam aos vossos lugares e e apertem os vossos cin…”. Ouviu dois disparos. Estava certa de que nenhum dos possíveis desenlaces se adequariam a alguém com as suas possibilidades.

Bateu as suas longas pestanas carregadas de rímel, nervosa. Ousou pensar no abraço forte de Sebastião, preferindo ficar-se pelo aeroporto.

Nesse momento, a imagem do namorado tomou grande parte da sua concentração: enquanto piscava, fatidicamente, entre realidades berrava-lhe a certeza de que, desta vez, não estaria a assassinar um estranho, mas o seu próprio coração.

No aeroporto, o pavimento negro reflectia, agora, um único par de pés. Catarina, agarrada à sua enorme mala verde, esperava o aparecimento dessa gloriosa figura. No seu lugar, surgiu uma indelével mancha azul-petróleo no recanto mais intimo da sua alma.

Tinha acelerado uma paixão para depois matá-la, friamente. Catarina viveria libertinamente, sem amor nem cama certa até ao dia em que, presa num acidente de viação quase fatal que não motivara, concluira: “Afinal há outros. Tenho de os encontrar”.

Catarina sabia que Sebastião jamais regressaria aos seus braços – é universalmente reconhecido que a morte é uma das raras excepções da magia, mesmo quando a espécie de feitiço não passa de um truque rudimentar capaz de esculpir vidas aleatória e cruelmente.

No regaço desses iguais, esperava, contudo, encontrar a resposta a esse impulso incontrolável que é o instinto de sobrevivência hegemónico perante o extraordinário abismo do receio.

Para ouvir: Chopin variation nocturne in F minor por Chad Lawson
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