Os “adeus” que nunca deveríamos dizer

26 de Julho assinala o Dia dos Avós, esses heróis imortais que nos carregam sobre os ombros e nos guardam no coração. Num desfile rápido pela minha infância e pelos dias em que esse privilégio me era garantido, recordo e celebro a felicidade que é ter essa cápsula do tempo e de amor à nossa disposição.

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As minha unhas, precariamente, pintadas exploravam a gaveta sem fundo dos botões. Ao meu lado, no banco de madeira escura, sentava-se a minha avó de avental axadrezado e óculos quase na ponta do nariz a dar ao pé.

A máquina rugia, ritmicamente, e eu deliciava-me com cada novo achado: um botão brilhante muito requintado; um maço de botões-miniatura quase transparentes; um outro exemplar muito colorido, ou  ainda um rolo de elástico esquecido.

A minha avó, quando ainda aguentava a curvatura do trabalho, passava horas a produzir barulho e vestidos; linhas e retalhos, que irritavam, profundamente, a minha mania das arrumações – desde sempre detectada – e deslumbravam o monstro criativo em mim que queria, frequentemente, pilhar os mantimentos da costureira.

Cresci no seio do pó dos tecidos e do odor a ferrugem disfarçada daquela besta quase centenária que era essa geringonça de coser.

A pulsação fria desse bicho arrepiara-me tantas vezes num misto de desejo e transgressão: “não devia estar aqui”, pensei, surripiando um pedaço de fazenda estampada que dedicaria à construção inábil de mais um conjunto saia-casaco para a minha, aparentemente, disforme boneca.

Quando o ruído desse esforço diário se calou, restava-lhe, somente, o tempo suficiente para deixar uma saudade ainda maior.

Na cadeira estéril do aeroporto, disse-lhe o último verdadeiro adeus. Beijei a sua face, apenas, levemente enrugada em virtude dos múltiplos cremes em que acreditava – vício herdado por mim própria – sem saber que, nos meses seguintes, regressaria a um colo mole, que já não se conseguia erguer.

A minha avó era uma daquelas árvores maciças, eternas, inquebráveis até perder a batalha contra a maior inevitabilidade desta vida.

A minha avó era um abraço escaldante, apertado e exigente até se ver obrigada ao repouso permanente e ao sufoco que marcaram os seus curtos últimos dias.

Nunca celebrei sequer um primo afastado deste moderno Dia dos Avós.

Vivíamos debaixo do mesmo tecto inconscientes do privilégio de que desfrutávamos.

Existimos separadamente poucos meses: ela ao fundo do ecrã azulado da conexão virtual que ensinara, pouco tempo antes, a minha mãe a estabelecer e eu à beira de uma explosão tremenda motivada pelo alemão furioso que povoou o meu primeiro ano de faculdade. [Muito pouco recomendável, garanto.]

Na poltrona vermelha que, ainda hoje, toma grande parte do lado esquerdo da nossa sala de estar, tantos serões passou a minha avó a estudar-me. “Podes ir para a cama”, dizia eu a uma silhueta quase adormecida. “Não vais ficar sem companhia”, respondia-me com os olhos semi-cerrados e com o sorriso preguiçoso de quem já anda no quarto sono.

Finalmente, lá conseguia eu ver televisão sem o seu leve – ou, por vezes, mesmo imenso – ressonar. Ouvia o trinco agudo da porta, o peso da madeira a ceder, o colchão a miar: aquela imensa sinfonia que, inexoravelmente, me avisava de todos os seus movimentos.

Da minha avó ficou a brisa refrescante das noites de Verão passadas nos degraus da porta a escutar a lua e a fugir às baratas; ficou o ciúme magoado dos dias em que sentia que ser diferente me levara aos arrabaldes da afeição; ficou o cheiro a flores adocicadas e o chão molhado da sua rotina matinal.

Os avós, esses muros das lamentações imortais, são estrelas que tomamos por garantidas e que, quando se extinguem, não podem deixar de formar um incrível buraco negro: esmagador e brutal.

São pais do céu que nos entregam postais com as mãos a tremer da idade e erram, carinhosamente, a ortografia dos nossos nomes. São fãs daquilo que abominamos. São os mais fascinantes testemunhos dos momentos que desejamos ter vivido.

Os avós são as raízes indeléveis de um coração, irreversivelmente, despedaçado.

“Não vás. Não queres ficar comigo?”, questionavam-me aqueles olhos de coloração variável. Eu retorquia do alto da minha idiotice adolescente que queria partir (não que “tinha de o fazer”, como devia ter ripostado): que o desejava, cegamente.

Ela nada mais me dizia, até começar a discutir qualquer outro tópico quente da vida local ou qualquer erro culinário que a minha mãe, imaginariamente, cometera.

Eu nada mais lhe dizia, mas devia, porque mesmo a perpetuidade tende, parece-me, para um falecimento agendado, doloroso e inadiável.

Amanhã pode mesmo ser a madrugada em claro que nos desfalca sorrateiramente, mas ainda há hoje, há Sol e há calor para encher os dias e os regaços daqueles pares, incessantemente, completos.

Escapem, por isso, dessa redoma de orgulho que a juventude gera: abracem esses monumentos vulneráveis – ou as suas memórias – a quem devemos a origem, o sopro e a vontade de vencer.

Para ouvir: Love and imagination por Max Richter 
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3 pensamentos sobre “Os “adeus” que nunca deveríamos dizer

  1. Quanta ternura.
    Uma lágrima consegui conter, pensando na minha avó, no quarto ao lado, portadora da doença de Alzheimer e no passado. No pai que de forma tão violenta fez a viagem, fruto de um cancro voraz e mutilante. Do tudo e do nada.
    Do quanto preferia ser pobre, muito pobre mas ter uma família da qual me orgulhasse, que sempre me tivesse amado.
    Bjs

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