“Mínimos” risos, grandes problemas

O realizador de Lorax (2012), Kyle Balda, e Pierre Coffin, conhecido pelo seu trabalho em Gru Maldiposto (2010), trazem ao grande ecrã a divertida jornada de Bob, Stuart e Kevin pela Nova Iorque, Orlando e Londres dos anos 60. À sua espera estão duas horas de discursos incompreensíveis, risos sinceros e piadas estereotipadas, que, por vezes, esquecem a presença de crianças na sala de cinema.

Scarlet Overkill (interpretada, na versão original, por Sandra Bullock) é a primeira super-vilã feminina. É, na verdade, a criminosa mais temível de todos os tempos, anuncia a publicidade da Villain-Con.

Veste vermelho, sorri sarcasticamente e balança, elegantemente, as ancas. Scarlet tem tudo para ser uma vilã arrojada, plenamente concretizada, enfim arrepiante e arrebatadora, embora nunca saia dessa primeira página.

“Só algumas coisas que roubei para preencher o vazio”, informa Scarlet perante uma parede repleta de obras de arte.

Da vilã, conhecemos essa sua insaciabilidade [material e emotiva] e pouco mais. Não protagoniza o filme, é verdade, mas as suas aparições são tão efémeras e velozes que a definição dessa figura-chave começa a cair por terra.

Da mesma patologia, sofrem, infelizmente, as criaturas em formato de cápsula e coloração amarelada que prometem lealdade a vários mestres ao longo da História.

Servem um T-Rex e, mais tarde, o próprio Napoleão. Causam a morte de ambos. “Encontrar quem servir era fácil. Mantê-lo era mais complicado“, confirma a voz aveludada de Geoffrey Rush.

Depois de vários anos de ócio gelado, num Natal eterno sem líder, sofrem do maior mal de todos: o aborrecimento. Bob, Kevin e Stuart procuram, por isso, agora um novo vilão a quem servir. 

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Chegadas a Nova Iorque, as criaturas que, nos filmes seguintes, serviriam Gru procuram o que vestir. Um bela t-shirt tie dye? Não. Que tal umas bonitas jardineiras? Sim!

“Como a moda é circular”, diz-me a jovem sentada ao meu lado, cujo vestuário não difere em muito daquele agora adoptado pelas estrelas do filme de Coffin e Balda.

Mínimos é, de facto, uma excelente narrativa histórica.

Passámos pela encenação da ida do Homem à Lua e pela Idade Média;  conhecemos o Drácula e uma rainha Isabel II no auge da sua juventude. A nova longa-metragem da Universal Studios encarna, verdadeiramente, o mantra “aprender é divertido”. É, genericamente, encantadora.

Diversas são, porém, as vezes em que nos vemos chocados perante a tela agitada.

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Matam-se polícias com uma malícia ingénua que atordoa. Participa-se num assalto à mão-armada com a maior das naturalidades. Brinca-se com uma forca como se de um baloiço se tratasse. Roubam-se flores de um funeral sem sequer questionar a moralidade de tal atitude.

Há, com efeito, um imenso desfile de acções inconsequentes: crimes que passam impunes e que enfatizam, desmedidamente, a natureza agradável desses actos condenáveis.

A vilania de Gru Maldiposto concentrara-se no roubo de uma pirâmide e, mais tarde, da Lua.

Aqui, sob os discursos incompreensíveis dos Mínimos, sobrevivem ameaças reais, delitos sérios que, irrevogavelmente, tendem a influenciar negativamente os espectadores mais novos. 

A trivialização da violência é já um grave dilema da sociedade actual; dispensava-se mais esta adição ao caldeirão instável que são as mentes infantis.

Embora se aprecie, profundamente, a lição de História – geral e cinematográfica – os erros paralelamente cometidos podem mesmo ser fatais.

Ria-se com o constante (e estereotipado) consumo de chá que é adicionado à definição das personagens britânicas; aprecie a adorável coloração da fita; mas, se levar um dos seus “mínimos”, não se esqueça de corrigir as concepções que o filme pode deformar.

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