Fazer de Deus ou a arte do assassínio

Nas palmas nuas das suas mãos, Helena sentia o último pulsar de vida da sua mais recente vítima. O cheiro a ferrugem e a sal do sangue que acabara de fazer brotar embalava a sua perversa mente na balada incansável da ceifa final.

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Deitada sobre o terreno húmido, Helena conseguia escutar o nascer da noite. O céu estava claro: fingia uma madrugada mal dormida. Ao longe, os grilos ladravam incessantemente. O calor colava-se à pele, incomodava e intensificava o frenesim aditivo da morte.

Ao seu lado, jazia Matilde: inerte, pálida e ainda sorridente. Helena experimentou levantar-se.

Sentiu os dedos moles do cadáver sobre as suas solas gastas. Ouviu o ranger cândido dos seus anéis. Ousou pilhar a sua última conquista. “Uma gorjeta é sempre bem-vinda”, gargalhou Helena, olhando, docemente, aqueles restos mortais que haveriam de ser encontrados dois dias depois.

O dançar ingénuo das folhas imaturas do campo de milho animava-a. Os últimos suspiros do dia serpenteavam pelas lacunas da vegetação.

Helena avançava pouco e devagar. A entrada fora bem mais rápida, com Matilde pelo braço a indicar-lhe o melhor percurso.

“Venha, venha. Aí há muitos buracos”, aconselhara. Helena galgara o caminho com a infinita certeza de que este seria um trabalho rápido. “Mais uma investidora imobiliária falida, pronta para se ver livre das dívidas”, pensara sem antever a resistência: o revólver que Matilde dissimulara na sua silhueta avantajada.

O portão cedeu à primeira investida. Matilde estava ansiosa por sair desse seu décimo local do crime. “Definitivamente, tenho de mudar de localização”, comentara, sentindo a reacção dolorosa da sua pele ao ar gélido do carro, recentemente, descoberto.

O mesmo efeito causaria o chuveiro: a aversão.

Helena sentia-se, pela primeira vez, exposta a um mundo que arriscara saber da sua existência. Há cinco anos assassina por encomenda, desconhecia essa ameaça que é a de ver a sua inteligência dedutiva ultrapassada.

Sempre suicídios assistidos; moralmente, desculpáveis”, congeminava sob a abundante nascente do líquido escaldante que insistia na limpeza das marcas carmins que coloriam os seus braços.

Sentia-se enterrada naquela última imagem de Matilde: furiosa, mordaz, satisfeita.

“Finalmente, encontrei-te”, dissera-lhe, sorrindo. “Finalmente, estou frente a frente com a mulher que matou o meu filho”, gritara-lhe, eufórica.

Helena mudara o peso de um pé para o outro. As suas mãos ladeavam as suas ancas tonificadas.

Sabia que teria de cumprir a missão: Matilde encomendara a sua morte – tal como fizera o seu filho, alguns anos antes, na quinta-feira negra de 2009; pagara por ela; teria-a.

Avançou destemidamente, incapaz de pensar aquela senhora de meia idade uma assassina preprarada.

Sentiu a boca do instrumento mortal alojada no curto e aconchegante espaço entre as suas costelas. Tremeu com o disparo.

Rodou o pulso. Imitou Matilde cinco vezes e deixou-se cair, exausta daquele esforço tão desnecessário.

Helena viveria mergulhada no mistério desta vítima. Tinha de o fazer: um passo em falso, uma qualquer investigação exótica levaria-a à cadeira eléctrica.

“Talvez devesse fugir para um estado isento da pena de morte”, concluíra certa vez, embora plenamente ciente da impossibilidade de abandonar aquela adrenalina pura.

Todas as vezes, jorrava dos seus cantos da boca esse hálito lânguido e amargo do entusiasmo.

Helena matar-se-ia, numa breve expedição a Toronto – na verdade, num breve período de interrupção da sua actividade – desesperada na ausência desse estado alucinatório que só esse momento divino, supremo consegue garantir.

Para ouvir:  Harvest por Stefano Guzzetti
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