Escolher um curso? Eu rio na cara do perigo

Começam já amanhã as candidaturas ao ensino superior. Milhares de estudantes estarão colados ao ecrã, indecisos e incapazes de escolher o que estudar: a que condenar as suas vidas. Há dois anos, também eu fitava intensamente essa página elegante. Mas onde está realmente a dificuldade nesse processo tão simples?

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Sobre os ombros, levava, literalmente, a maior decisão que alguma vez tomara. Guardada naquela mochila rosa-suspiro estava a escolha de um curso que transformaria a minha vida.

A um clique de distância esperava-me [quase] um novo idioma, uma nova rotina, uma nova aventura.

Há dois anos, era-me impossível agredir levemente o rato do computador e finalizar o discurso que, repetidamente, mantivera por mais de meia década.

Levei às costas essa possibilidade até à casa da minha irmã. Sentei-me à mesa, olhei as rosas selvagens e a rua inclinada que lhe banhava o jardim. Ouvi o ténue choro da minha então recém-nascida sobrinha. Senti a mão forte do costume apoderar-se da base do meu crânio. O meu estômago rugia e comprima-se, violentamente.

Tinha preenchido quatro opções, das quais apenas uma – a última – garantiria uma estada prolongada na minha infância nunca plenamente concretizada.

“Carrega, por favor”, pedi-lhe, fitando o enorme botão verde. A minha irmã agarrou o meu indicador. Eu hesitei. Um segundo depois, estava feito.

Sabia – embora receasse – que entraria exactamente onde queria. Eu queria – sempre quisera – aquele curso, aquela universidade, aquela vida de dormitório e calhamaços.

Naquele momento, sobrava-me menos de três meses para aproveitar a domesticidade açoriana, o sotaque preguiçoso e o cheiro a pimenta, hortelã e limão que sempre povoara a atmosfera do lar original.

Há dois anos,  tomei a maior decisão que alguma vez tomara: escolhi estudar comunicação – embora estivesse mergulhada em possibilidades mais sorridentes (“vai para Direito”, diziam-me; “com essa nota até podes ir para Medicina”, cheguei a ouvir) – numa universidade a duas horas aéreas de casa: centenas de euros longe de tudo o que conhecia.

Abandonei-me ao desatino de ir à selva urbana por um sonho que nem sabia ter ou não materialidade.

No primeiro dia de aulas, três meses depois, sentia-me tão confortável naquela multidão estrangeira que me era impossível avaliar erradamente essa decisão.

A verdade é que, para mim, o fim do secundário não trouxe opção alguma difícil. Escolhera aquilo que sempre soubera ser o âmago da minha alma.

Andava – então e agora, para sempre – viciada em informação, palavras desusadas, frases trabalhadas, estórias peculiares, vozes diversas e, sobretudo, na capacidade de salvar o mundo abrindo-lhe os olhos para aquilo que se passa fora do seu umbigo.

“Quero ir para a Síria”, tantas vezes atormentei a minha mãe especada em frente ao noticiário nocturno.

Aos treze, sabia que queria escrever: dar novos mundos ao mundo. Afinal, sempre fora essa a nossa vocação.

Aos 15, tinha a certeza que esses homenzinhos que, frequentemente, caminhavam na minha mente teriam de conviver com a existência real daqueles que sofrem a injustiça de passar despercebidos ou, simplesmente, mal-percebidos.

Aos 19, no final do meu primeiro ano de faculdade, estava convicta da minha missão.

Confunde-me imaginar-me sem essa vontade antiga.

“Como sobrevivem sem a paixão de olhar um futuro incerto e proeminente?”, pergunto-me eu sempre que vos encontro, embora saiba da vossa frequência.

Proliferam por aí, livres do peso de um arbítrio toldado por essa marca indelével que é a quimera teimosa.

Por esta altura, crescem como cogumelos as crónicas e comentários à realidade absurda que é, aos 18, decidir o que fazer até aos 65.

Asfixiam-se, certamente, os feed com conselhos e berros ao sistema que olha os potenciais candidatos como números e casas decimais anónimas. Por agora, lamentam-se os erros e as horas de dança que deveriam ter sido de estudo.

Em frente ao ecrã brilhante, derramar-se-ão mais lágrimas do que nunca.

Também eu as derramei, já em Setembro, num misto de euforia, pânico profundo e medo, embora visse gritar-me a concretização iminente do que queria.

Para quem as derrama agora perante a certeza de não obter semelhante resultado, um sentido abraço e a esperança de que novos caminhos surgirão.

Para quem permanece de rosto seco – de certo sem sequer saber em que clicar – aconselho uma dose intensa de realidade.

Embalada pela ridícula convicção de que conquistarei tudo o que a minha louca imaginação propõe, consigo ainda assim reconhecer o volume diminuto dessa tão mediática passagem.

Aos 18 ninguém decide o que fazer aos 60. O ensino superior são [tendencialmente] três anos de um caminho tão largo que engole, sofregamente, essa transição educativa.

Aos 18, sinta o seu espírito agitar-se face à mera possibilidade de conseguir entrar na sua primeira opção.

Aproveite estes 3 anos de privilégio e esforço para se formar enquanto Homem e cidadão do mundo.

Nem aos 21, livre da responsabilidade da licenciatura, será chamado a tomar essa tão famosa decisão.

Arrepia-me pensar nas verdades que andam por aí certas de que somos demasiado prematuros para decidir. Cresçam, senhores. Aos 18, somos – e temos que ser – mais do que capazes de escolher uma estrada.

Aos 18, não somos, porém, donos do nosso destino: como não somos, de resto, aos 20, aos 30, nem mesmo aos 70.

Essa ave rara que é uma carreira para sempre, estável e fatal é, de certo, vestígio de outros tempos.

Hoje, somos, efectivamente, casas decimais – acerca disso ainda há muito para dizer, receio – que se decidem por três anos e navegam à deriva por 60 sem nunca abandonar um leme que não é – nem não pode ser – só seu.

Afinal, escolher um curso não é assim tão complicado: é, antes, um incrível salto de fé que nos arranca o coração e abocanha a alma, fazendo cantar o mais pequeno átomo do nosso ser.

Por isso, sejam felizes, queridos leitores. O resto são estórias.

Mais: Guia para escolher o seu curso por Marlene Carriço, Rita Cipriano e Andreia Reisinho Costa, no Observador.

Para ouvir: Russian Notebook por Ilya Beshevli.

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7 pensamentos sobre “Escolher um curso? Eu rio na cara do perigo

  1. Não tenho palavras para dizer o quanto gostei e o como concordo.
    A tua escrita é enorme, brilhante, fantástica!… E o que dizer da pontuação? Estou “de queixo caído” com esta publicação. Pessoas assim são aquelas que devem publicar livros.

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      1. Quantas gentileza. Podes tratar-me por tu. Temos gostos semelhantes e podias ter sido minha aluna. Como tal, quebrei o protocolo.
        Não, ainda não escrevi nenhum livro embora digam para que o faça. Sou daqueles que defende que num livro devemos encontrar uma escrita como a tua. Adoro letras embora seja da área das ciências exatas. Como tal, amo saborear vírgulas e outra pontuação, o vocabulário tão bem utilizado – detesto os que se armam em drs e… cada palavra, dicionário. Chegado ao fim, a mensagem é nula.
        Poesia… Creio que a última vez que a escrevi foi no 7 ou no 11 ano. (estou a comentar do smartphone pelo que há alguns erros). No blogue, a alguns posto chamaram poesia. Daquela formal, definitivamente creio não saber escrever. As regras roubam-me a imaginação.

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      2. Ai as regras… sinto o mesmo. Quando tento submeter-me a um projecto literário disciplinado, não me sai grande coisa. A escrita tem mesmo de tomar conta de tudo (é suprema essa sensação de completa perda de controlo), embora, no caso da poesia, me surja muito como sensação que pode mesmos ser curvada à rima e, nos dias de maior vontade, à métrica regular.
        Abraço 🙂

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      3. Ainda ontem tive essa experiência na elaboração de um relatório, com o número de folhas limitadas. Uma e meia no máximo! Como se não bastasse, as regras do AO que vão além da escrita das palavras. Para além da dureza para que fluissem, errei a pontuação. Sentia-o. Tive mesmo que o enviar a uma amiga. Regras e limites. Odeio limites de páginas.
        Abraço

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