A Família Bélier rompe rótulos e expectativas

Anunciado como o próximo Amélie (2001), o filme francês de Eric Lartigau, A família Bélier, segue a história da ascensão de um talento no seio de uma família incapaz de o perceber. A voz de Paula (Louane Emera) emociona, contagia e confere suprema delicadeza àquele encanto rupestre. 

Queridos pais, eu amo-vos, mas parto. Não terão mais filhos esta noite. Não estou a fugir, estou a voar”, canta Paula (Louane Emera) com o seu inteiro coração.

Na plateia, Gigi (Karin Viard) permanece rígida: indiferente a esta actuação que lhe é, biologicamente, estranha.

As mãos de Paula, embaladas na cadência suave da música e na sofreguidão da linguagem gestual, destroem, por fim, esta muralha, [re]unindo os dois mundos que compõem a família Bélier.

Filha de pais surdos, Paula Bélier consegue não só ouvir, mas também cantar, talento que tenta a todo o custo suprimir.

O fascínio das pessoas ouvintes pela relação entre a música e a surdez não é partilhado pelas pessoas surdas“, escreve Rebecca Atkinson, no The Guardian. “[Trata-se] do estereótipo exagerado de que as pessoas surdas têm de tolerar as suas vidas”, sublinha.

Atkinson coloca-se ao lado de toda uma comunidade revoltada perante esta representação cinematográfica que consideram ser nada mais do que pobre e insultuosa.

A interpretação que Karin Viard e François Damiens, ambos ouvintes, prestam aos papéis de Gigi e Rodolphe Bélier  tem sido o alvo principal desta crítica feroz.

Qualquer espectador percebe, contudo, que a intenção d’ A família Bélier não é condenar aqueles que sofrem de surdez a um vida de limitações, mas, de facto, explorar a relação familiar e o modo como reage aos obstáculos que, naturalmente, vão surgindo.

A fita de Lartigau consegue, ainda, convencer-nos dessa normalidade que Atkinson apregoa sem perceber a sua presença no filme. O pai de Paula, Rodolphe, é o exemplo máximo de alguém que esmaga a pretensa caixa redutora da sua condição.

Embora completamente surdo, Rodolphe candidata-se a presidente da vila, lutando pelos direitos dos comerciantes sem se retrair perante as dificuldades de comunicação.

Neste filme, a surdez funciona não como catalisador emocional, mas como estimulante da relação familiar e, consequentemente, como alimento da poderosa metáfora que lhe está subentendido.

A história de Paula é a de um talento incompreendido pelo meio e não é novidade.

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A beleza desta fita está, efectivamente, neste desafio maior que é não o confronto com uma família implacável – o habitual desenlace – mas a coragem de crescer e de se afirmar, mantendo os laços que ousara ameaçar.

A família Bélier transpira um género esplêndido – e raro – de aceitação e bravura.

Por um lado, Paula receia abandonar os pais para perseguir um sonho, uma vez que sempre fora ela a sua voz e o seu elo de ligação ao mundo. Por outro, sente-se culpada por ousar ser tão diferente dessa sua herança familiar.

Gigi diz-lhe que, por não ser surda, não é como eles. Gigi confessa-lhe que desejara uma filha incapaz de ouvir.

O filme protagonizado por Emera é, no entanto, muito mais do que uma obra acerca da surdez. É uma extraordinária metáfora da coragem e do arrojo necessários para abalar a norma e o esperado.

No momento final, Paula canta Je vole, fazendo chorar até as pedras da calçada e sorrir os bravos que, certa vez, desafiaram as expectativas.

Paula voa, por fim, sem culpas ou remorsos: livremente. Gigi e Rodolphe regressam a um mundo, onde são perfeitamente capazes de existir mesmo sem o auxílio da filha.

A família Bélier é, por isso, uma obra de força, semelhante aos Intocáveis de Olivier Nakache e Eric Toledano, embora lhe falte o brilho e requinte deste último.

A rudeza da fotografia é, porém, uma mais-valia inteligente, já que na sua mediania deixa brilhar as vozes, os olhares e as entrelinhas que por aqui passeiam.

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