Aos filhos que não terei ou a moda de ficar para tia

“Não quero ter filhos”, sempre disse eu, num misto de verdade e vontade de abalar as expectativas. Vinte anos depois, reforça-se essa certeza com a convicção de que essa demanda que todos partilhamos pode afinal ser concretizada de diversas formas. E porque não ficar para tia?

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Do alto do meu palmo e meio, respondi-lhe com um meio sorriso travesso: “não quero ter filhos”.

Presa naquele estado eterno da meia idade, a mulher sentada ao meu lado gargalhou, abanou a cabeça e informou-me, diligentemente, que haveria de crescer, de conhecer a vida e o mundo. Enfim, quis fazer saber que quando encontrasse alguém de quem gostasse, todas estas convicções, ridiculamente, infantis seriam substituídas por pensamentos “a sério”.

Aos vinte anos, proprietária de um palmo pouco mais largo do que o original – para meu desespero – vejo-me ainda sentada ao lado desta senhora sociedade. Ao lado, disse bem.

Continua a parecer-me incrivelmente ofensiva esta concepção gasta de um príncipe encantado que entre outras missões cumpre a de rectificar as minhas vontades, tomando, essencialmente, as rédeas de uma decisão que é minha por direito.

“Quero a minha mãe”, diz-me a minha sobrinha entre a última dentada do biscoito que lhe ofereci à socapa e a necessária sesta das cinco.

Ofereço-lhe a minha mão. Ela concede-me os seus dedos gorduchos e a elasticidade das suas tenras pernas que, salto a salto, vão galgando as escadas.

Deitamo-nos na penumbra. A sua respiração lenta e escaldante humedece a reduzida atmosfera do meu quarto.

O meu olhar vagueia pelas suas longas pestanas e pela curvatura doce do seu pequeno nariz.

O meu pensamento vai morrendo na praia futura do que farei sozinha, desprovida da companhia de um destes pequenos heróis à medida que sonhos inocentes vão desfilando nesta cabeça que embalo.

Há dois anos, quando, pela primeira vez, me concederam o privilégio de segurar, verdadeiramente, um bebé, senti-me incerta.

A relação umbilical que vi nascer fascinou-me. O instinto da maternidade que os meus olhos percebiam prometia, certamente, um guia biológico – quase automático – para aquela nova demanda que a minha irmã tomava.

Encantava-me e aborrecia-me ver dormir a mais recente adição à família. Queria-a acordada e de bom humor. Nos meus braços, escutava o bater ligeiro e afogueado desse novo coração.

Depois, vieram as cólicas e os primeiros passos. Vieram as tardes de choro e as primeiras palavras.

Remotamente e com falhas consideráveis, fui navegando nesse mistério que me deliciara, sem nunca trocar uma fralda ou passar uma noite em claro.

A fantasia de ser mãe, brevemente animada por esse dia inaugural de carinho, rapidamente deu lugar à convicção de que ficar para tia é muito melhor – e muito mais saudável. Afinal, a maternidade é mesmo esse processo árduo que sempre falhara em atrair-me. 

“[Serei a tia] inapropriadamente ruidosa [que traz] os presentes caros”, escreve Chelsea Hottovy, na Time. Investida desse novo cargo, também eu assumi essa posição: a da extravagância.

A paisagem surripiada pelos olhos de terceiros é sempre deslumbrante, ainda mais quando, no final do dia, podemos rir até não haver mais ar nos nossos pulmões com cada nova chapinhada na piscina para bebés plantada no quintal.

Ainda mais, quando podemos dedicar o nosso inteiro coração, sem sentir sobre os ombros o peso desses quilos de responsabilidade.

“Os pais são corajosos e fortes [tal como] os astronautas e neuro-cirurgiões e também não quero ser nenhum desses dois”, sublinha Hottovy.

A responsabilidade não nos assusta. Carregamos toneladas de outros deveres, sem nunca conseguir ouvir as badaladas desse relógio biológico prometido. 

Aos 28 anos, Hottovy eliminou de todo essa possibilidade. “Passei uma manhã maravilhosa com o meu médico, durante a qual foi concretizada a laqueação das minhas trompas”, revela.

Hottovy enumera justificações para a sua decisão: não quer pensar em pagar propinas, não quer lidar com um adolescente revoltado, não se quer decidir pelo ensino privado ou público, …

Esse desfile de razões, potencialmente, egoístas aos olhos do mundo viciado na submissão feminina ao dever da procriação arrepia-me.

Sinto, como sempre senti, que a cada um cabe o dever de transformar o mundo a que veio e de cuidar dos que com ele o populam. Reconheço na maternidade o caminho tradicional – extremamente válido e valioso – de triunfar nessa tarefa.

“O que eu quero é ser feliz”, termina Hottovy. Não partilho, inteiramente, desse desejo hegemónico e talvez seja esse o ponto em que a eventual acusação de egoísmo se despedaça.

Incompreendida ou olhada como anomalia num sistema perfeitamente oleado, vejo-me devota da vontade de abrir os olhos – os meus e todos os outros que encontrar – e de erradicar vilões com a palavra.

Esse será, portanto, o meu legado: a crença na mudança e o desejo de eliminar gigantes com a mais inocente arma à disposição do homem.

Poderia, evidentemente, tentar fazer ambos: ser mãe e David, mas grito ao mundo a verdade de que nem todos deveriam ser pais, de que esse instinto não é suficiente e de que esse privilégio deve fazer cantar o coração, não tolhê-lo completamente.

Na idade em que ouvia os primeiros suspiros pela vidas que teríamos, repletas de beijos matinais e crianças loiras na mesa da cozinha, sentava-me acompanhada nos muros precários da adolescência, deixando clara a impossibilidade de qualquer formação familiar semelhante.

“Mais do que uma vez fiz algo só para contar aos netos, sem nunca sequer os planear “, confessa Hottovy.

Tantas são as experiências, os lugares, os livros, os filmes e os segredos que guardo para essa filha que não virá. Essa filha que nunca quis ou imaginei.

A vontade de lhe deixar o meu mundo é o derradeiro acto egoísta produto da patologia de não querer desaparecer. Esse herança que fertilizo ano após anos é o berro supremo da minha quimera frustrada de imortalidade.

Em qualquer nascimento ou em qualquer morte, fito, irrevogavelmente, essas próteses. Os filhos são cápsulas do tempo extraordinárias. Pena ser-me inimaginável dedicar-lhes essas horas que, apaixonadamente, quero entregar à salvação do mundo.

Diluída no tecido cruel desse tempo que se esgota, morrerei para sempre – não por agora, como todos esses pais – ficando, talvez, na memória agitada dessas sobrinhas múltiplas a quem contarei histórias com vozes e sotaques engraçados; com quem cultivarei a minha eterna juventude e ousadia; a quem deixarei uma caixinha minúscula de lembranças sépia confusas, uma vez aprisionadas no abismo mortal que é o meu cérebro.

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6 pensamentos sobre “Aos filhos que não terei ou a moda de ficar para tia

  1. Não partilho do teu desejo de ser tia e David. Confesso que gostaria de vir a ter dois filhos – e que já ficaria feliz com um. Sempre adorei crianças. Enterneço-me cada vez que olho para uma e, se puder, quero ser mãe, tia e David. Mas parabéns pela convicção e pela forma maravilhosa com que escreves.

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  2. Adoro a forma como és audaz e convicta nestas tuas opiniões mais ” polémicas” admiro-te por isso Isabel. Muito bom trabalho, a cada frase ia ficando mais intrigada, talvez por dar mais importância à minha “carreira” do que há constituição de família. Mas PARABÉNS. Adoro o teu blogue 🙂

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