Kara Zor-El enfrenta vilões #likeagirl

A nova série da CBS, Supergirl, anuncia a chegada de um novo herói (heroína) ao pequeno ecrã. Kara Zor-El (Melissa Benoist), a não tão conhecida prima do Super-Homem, promete dar um lição de feminismo. Será que consegue?

O balcão de um típico café/restaurante americano enche-se de curiosos especados perante o noticiário que lhes revela a presença de um novo herói na cidade.

“A minha filha tem, finalmente, alguém para admirar”, exclama com entusiasmo uma mulher sentada mais ao fundo do estabelecimento. Os homens fitam-na, mas não reagem.

A cena muda num ápice, deixando a declaração no imenso vazio da incompletude e na companhia das múltiplas tentativas de feminismo que a nova aposta da CBS, Supergirl, empreende.

Supergirl estreia oficialmente este sábado, dia 11 de Julho.

O episódio piloto, que desde o final de Maio já está disponível, apresenta-nos, genericamente, o passado de Kara Zor-El (Melissa Benoist), prima do já conhecido Super-Homem, acompanhando a sua ascensão enquanto heroína de National City.

Aos 24 anos, Kara decide, finalmente, assumir os seus poderes e a sua vontade de proteger a cidade e os seus cidadãos.

“As raparigas não podem salvar ninguém. São os rapazes que resgatam as raparigas, nas histórias”, comenta uma menina de pele escura, cabelos brilhantes e óculos ovalados no mais recente vídeo da campanha #likeagirl (#TipoMenina, no Brasil).

Kara parece habitar essa mesma caixa. Chegada ao escritório, ouve a heroína mistério – a sua identidade é ainda desconhecida – ser chamada de Supergirl (super rapariga).

A sua expressão, geralmente, serena e simpática enche-se de indignação e fúria. “Não pode chamá-la de rapariga. Ela não é uma rapariga”, grita a Cat Grant (Calista Flockhart), directora do grupo de media para o qual trabalha e editora do jornal Tribune.

“Eu sou uma rapariga e tua chefe e poderosa e atraente e rica e inteligente”, responde-lhe Grant, balançando as ancas pelo elegante escritório.

O discurso de Grant invoca, flagrantemente, essa campanha feminista patrocinada pela Always. É brilhante, mas tende a falecer na solidão.

É que, embora repleto de enunciados semelhantes, Supergirl prefere demonstrações precárias de feminismo. “Lutar com ele seria uma honra. Lutar contigo é exercício”, atiça Vartox (Owain Yeoman), um criminoso temível. “Ela não é forte o suficiente, porquê? Porque é uma rapariga?, questiona Alex Danvers (Chyler Leigh), “irmã” de Kara.

À primeira, apreciamos a subtileza, à segunda, desprezamos o estereótipo. Diversas são as vezes em que, sem qualquer motivo evidente, discursos deste tipo pontuam o episódio.

supergirl_2015

Esta nova série dos criadores de Arrow, Greg Berlanti e  Andrew Kreisberg, promete, assim uma espécie imatura de feminismo que muito desilude.

Kara, Alex, Grant ou a senhora anónima do restaurante defendem-se, mutuamente, enquanto mulheres. Os homens ficam, infelizmente, fora desta luta pronunciada.

O discurso de Emma Watson em Setembro do ano passado num evento das Nações Unidas e a consequente campanha He for She antevira uma luta lado a lado.

A aposta da CBS numa heroína, finalmente, feminina – e livre da cruz que é a estereotipização sexual – parecia adivinhar essa aceitação.

“Acreditaremos ou não em Kara pelo que ela é, pelas suas capacidades e não pela género que carrega”, pensara eu, antes de consumir este episódio-piloto.

Esta 3ª interpretação de Supergirl, personagem originalmente criada por Otto Binder e desenhada por Al Plastino, falha, contudo, nesse salto evolucional. Ficámos presos nesta luta unilateral que ainda sente a falta dos seus camaradas masculinos.

Embora este primeiro episódio revele algumas lacunas graves que têm de ser, urgentemente, colmatadas, o entusiasmo em torno da série e do eminente segundo episódio não é menor.

O elenco é fabuloso – Benoist interpreta uma Kara credível, empática, forte e tão valente quanto esperávamos – a banda sonora é bastante agradável, a coloração deslumbrante e a vontade de encher o pequeno ecrã de bravura feminina é louvável.

Esperamos ver, à semelhança do que acontece neste segundo vídeo da campanha #likeagirl, Kara destruir todas estas caixas em que se colocou, em que as outras personagens a colocaram ou em que nós a colocámos.

Supergirl poderá ser o tão esperado desfile de mulheres poderosas – não só kryptonianas, mas também mortais – que fará culminar o agitado movimento feminista que, nos últimos meses, tem ganho tanta visibilidade mediática.

Ainda que falhe, o projecto é, sem dúvida, uma tentativa corajosa de abanar esses cânones retrógrados que ainda nos asfixiam, matam e cortam as asas.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s