Esses filhos que me morrem no ponto final

Naquela noite, sem que nenhum de nós soubesse, havia estilhaços das nossas vidas por todo o lado.

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Sob as solas brilhantes dos nossos sapatos, a construção estável e arrepiante protegia um Sena preguiçoso.

O rio escorria, lentamente, e nós, sobre ele, dançávamos a valsa inaudível que, pela centésima vez, me embalava secretamente.

Passos pequeninos a um ritmo delicioso. O céu estava levemente opaco, pouco esquecido dos azuis do dia. Um magnífico manto pintado de profunda harmonia.

Ao longe, ouvia o relógio de Notre-Dame bater as nove badaladas. Longas horas de vinho, vozes altas, luzes e olhares esperavam-me.

Naqueles ínfimos minutos que nos sobravam, nada mais existia.

Éramos quase um. A sua pele áspera com a barba mal cortada agredia, deliciosamente, o meu rosto macio pelos milhares de cremes que inventava.

Os seus olhos verde água procuravam as minhas linhas suaves. Sentia-me perscrutada e feliz.

Ficámos neste abraço alguns segundos e depois parti. A Lua estava clara. Essa luminosidade esquecida fazia o seu rosto escultural brilhar.

Deixei-o à beira rio, na esperança de o ver um dia de novo ao meu lado. “Talvez o fim de um ciclo signifique o início de outro”, pensei eu, corajosamente.

Estávamos especados sobre as tábuas pouco seguras e em nosso redor não havia menos que mil pedaços de vidro que reflectiam suavemente o luar. Pela última vez, um adeus, uma até já, inconsciente.

Na manhã seguinte, restava somente o meu corpo amolecido pelo álcool sobre o colchão habitual, marcas de batom nas almofadas e um enorme corte no lugar onde, uma vez, batera um coração.

Estavas, finalmente, a salvo.

O peso insuportável do meu crânio regado pelo vício impedia qualquer movimento precipitado. Deixei-me fundir com a nuvem branca que me envolvia. Sentia-me, verdadeiramente, oca.

A manhã bailava na arquitectura requintada do copo esquecido no chão. Ao seu lado, o telemóvel tremia incessantemente num compasso demasiado acelerado para alguém meio humano e completamente vão como eu.

-Alice, aqui – gritei ao aparelho, que apanhara penosamente.

-Bom dia, Alice. Como estás? Esperamos por ti ou já não apareces? – respondeu-me a voz masculina.

-Estou aí em cinco minutos – prometi, vagamente.

O meu cabelo loiro-papelão estava demasiado seco para ser sequer penteado. O meu rosto, dizia-me a janela, estava destruído pelos vestígios da maquilhagem à prova de água (esse mito urbano). Os meus membros estavam dormentes. Cinco minutos eram, certamente, uma utopia cómica.

Saltei para o quadrado de mármore branco que me convenceram ser um duche sofisticado.

Deixei o líquido transparente apagar as memórias de uma vida mais feliz, daquelas manhãs animadas, insanamente enérgicas, repletas de cafés, croissants e folhas amareladas pelo uso.

Os músculos do meu pescoço pulsavam. “Que queriam eles? Ser contorcionistas?”, reclamava eu. O fluxo escaldante não surtia o efeito desejado, mas pelo menos fazia o vazio parecer menos gélido.

-Bem-vindos, caros leitores – anunciei eu uma hora e meia depois – estou muita grata por vos ter aqui, no lançamento de mais este livro. Acredito que Afonso tenha sido a personagem que mais me custou parir – ri-me a bandeiras despregadas.

Falei-lhes de ti e do teu olhar cor de rio. Contei-lhes a tua história, os teus segredos e manias. Fiz-lhes perceber que és o meu primeiro filho pelo qual ninguém pode evitar apaixonar-se.

-Afonso surgiu-me num momento raro de preguiça. Mentira! – gargalhei, gravemente. O meu editor começava a abanar os dedos. “Cinco minutos”, berravam em surdina as suas mãos.

-Estava a fazer Yoga. A minha mente estava, completamente, vazia – como me aconselha a minha instrutora – e, do nada, surgiu-me lucidamente este homem.  A partir daí, já não o podia esquecer. Afonso é belo, mas não é de todo o herói de um desses livros para mulheres. É um herói discreto. É viajado – viaja imensamente nesta obra, têm de a ler – inteligente, perspicaz, estranho.

Terminei com um grande aplauso. Todos eles queriam conhecer-te. Espero que não te interpretem mal; que não receiem a tua mente retorcida.

Logo depois, fugi para a tarde parisiense. Sentei-me numa daquelas cadeiras verde-esmeralda de ferro barato que costumávamos povoar.

Estiquei as pernas, já mais conscientes, e comecei a apreciar a invasão solar. Paris cheirava a açúcar e a peónias, abria o apetite e deixava sonhar.

Fechei os olhos e esperei que me aparecesses. A dança sobre o Sena esgotara-me.

Deixar-te ali, naquela última página, preso ao ponto final arrepiara-me a alma. Queria, imensamente, moldar-te com papel e gesso. Fazer de ti uma companhia física, visível.

Em breve, serias devorado por esses leitores ávidos de romances sagazes.

Por agora, eras um segredo só meu, ainda que já distante. Esse corte que gritava no meu peito significara a tua morte, esse adeus, esse desterro para o mofo das quinhentas páginas que te devotara.

Na noite em que acabei o meu terceiro romance, morreu-me um filho. Morreste-me tu, Afonso.

Nas mãos gulosas desses monstros que pagam pela centelha criativa da minha alma, estarás perdido nas leituras prolíferas que te dedicarão.

“A obra só se completa quando o autor morre”, li eu numa noite antes de te começar.

Faleci-te – deixei-te falecer-me – para que conheças o mundo dos textos que popula essas mentes selvagens.

Faleci-te para que vivas preso nessa intertextualidade quase subjectiva e sempre, eminentemente, mutável.

Pobre Afonso, o quanto de ti serão lágrimas secas e gargalhadas violentas que interrompem sonos mal dormidos.

Adeus, adeus, Afonso. Esta noite, estarei naquela ponte à espera que a luz fraca da Lua me faça descobrir o teu olhar quase transparente.

Até lá, fica-me esta Emília que se insinua e me impele num mesmo ciclo suicida. Bem-vinda.

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