Maria quer ouvir e contar a sua história

Maria João Nobre, fundadora da Máquina Biográfica, transforma as vidas de pessoas comuns em livros. Em cinco meses, seis histórias. “Fascina-me o poder de congelar o tempo, a certeza de que este legado não se vai perder”, revela.

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Os enormes olhos castanhos de Maria fitam a folha em branco. “Começar é difícil. Tenho sempre a sensação de que é desta que não consigo. Até às primeiras duas ou três linhas…”.

Senta-se à secretária do seu escritório, à mesa da cozinha ou no sofá da sala de estar repleta de fotografias e memórias. Flutua pela casa até encontrar o lugar ideal. Organiza as anotações, as dezenas de páginas de transcrições e prepara o computador. Respira fundo. Não vai deixar que o tempo devore mais uma história.

Maria João Nobre, 37 anos, fundadora da Máquina Biográfica, que há cinco meses anda a transformar as vidas de pessoas comuns em livros.

O serviço não é novidade. Maria trabalhara “no primeiro projeto deste tipo a surgir em Portugal”, mas a vontade de fazer diferente e à sua maneira conduziu-a a esta aventura.

Durante meses, mergulha na vida do biografado. Fala com familiares. Conversa com amigos. Encontra colegas de infância, que se julgavam perdidos. Sente-se parte da família. Colecciona todos os momentos dessa vida. Sabe “quando lhe caiu o primeiro dente, como pediu a mulher em casamento e se estava nervoso ao ir para a tropa”.

No final, resta-lhe um fantasma, que carrega durante semanas. “Agora como é que eu vivo sem esta pessoa?”, questiona-se Maria. “Custa-me muito desligar. Ela nem sabe como me custa, mas custa-me muito”.

Quer sobretudo entrevistar, escrever, conhecer mais histórias. “Fascina-me o poder de congelar o tempo; a certeza de que este legado não se vai perder”.

Quer guardar “as cantigas de trabalho de Trás-os-Montes” que resistem na mente de poucos sobreviventes, as histórias de amor, os tempos do Estado Novo ou os dias da guerra colonial.

Sobre os ombros, Maria traz ainda a imensa responsabilidade que a recolha dessas vidas implica.

Corria o ano de 2009, quando, pela primeira vez, se dedicou à recolha da história de alguém. “Foi aterrorizante”, conta.

Era “a prenda de aniversário suprema” de uma mulher para um marido, que fazia 50 anos. Era o somatório de tudo o que eles já tinham vivido juntos.

“Senti uma responsabilidade tão grande. Ninguém escreve a sua história de vida ou a história de vida de um filho duas vezes”, sublinha. As primeiras entrevistas tranquilizaram-na: estava finalmente a mergulhar naquele pequeno universo.

Biografias para surpreender, ler e partilhar

“80 por cento dos nossos clientes querem homenagear um pai, um irmão, um amigo ou um filho. Não é o biografado a pedir a biografia”.

Não encontra quem retrata e, contudo, apaixona-se pela sua história. “É tão fácil gostarmos e envolvermo-nos com as pessoas. Isso é uma coisa que ainda me surpreende”, enfatiza a biógrafa.

Em cada livro, Maria tenta dissolver-se para deixar entrar as vozes, os momentos e as vidas que marcaram a história que regista. Acredita-se “flexível e camaleónica” nessa arte.

A sua única marca, confessa, é a vontade de “evidenciar à pessoa que ela tem uma vida maravilhosa”. Lembrar as coisas boas é, apenas, o primeiro passo. “Se nós não as registarmos, não lhes damos vida e elas passam por nós, esfumam-se”, defende.

A Máquina Biográfica é, por isso, a concretização de um “certo carácter de altruísmo” que diz procurar em todas as actividades a que se dedica.

Em cada história que escreve, tenta reatar laços familiares ou iluminar vidas mergulhadas em alguma escuridão.

As suas biografias “são para ler e partilhar”, para unir pessoas que se amam em torno de uma porção de tempo aprisionado.

Maria imagina os seus livros a serem “lidos em família, à lareira”, em serões convocados exclusivamente com esse propósito.

“O livro não nos pode sair do umbigo”, sublinha com um ar sério. “Nós temos de ser capazes de criar um objeto que possa ser lido pelo homenageado, mas também pela sua mulher, pelos seus filhos, pelos seus netos, quer tenham oito, vinte ou oitenta anos”.

Histórias para todos os gostos

O ponto de partida e de chegada é sempre a intenção do cliente, que entre factos e ideias fixas vai deixando algum espaço para a criatividade de Maria florescer. “Temos que adequar o discurso. As abordagens variam”, revela.

“Há pouco tempo escrevi, com muito pouco intervalo, um livro sobre um general que pertencia ao Estado Maior das Forças Armadas, uma pessoa muito inflexível, com muito pouco sentido de humor e, quase em paralelo, uma homenagem a um rapaz de 30 anos com um sentido de humor delicioso”, conta.

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As histórias vão desfilando pelas páginas em branco do bloco de notas de Maria, todas diferentes e únicas. Todas especiais.

Eis ali um casal que se conheceu no elétrico. Ele tinha perdido a carteira. Ela tinha sido assaltada. Vinte e cinco anos depois, a sua história de amor é imortalizada por Maria. Intitula-a “Um dia de cão”.

Mais abaixo na estante, guarda a história de um final mais triste. Um marido a morrer de cancro no hospital que, já em coma, ouviria a sua história a ser relatada pela voz do seu amor e pela mão da biógrafa.

Os títulos multiplicam-se. Às vezes, “surgem logo”. Noutras, “a coisa é mais difícil”. Uns títulos servem de mote a toda a história. Outros trazem os clientes à Máquina Biográfica entusiasmados por verem as suas aventuras no papel.

Maria gosta de terminar a biografia com a própria história do livro. Os finais versam sobre os dias de agora, fecham um ciclo. “Claro que as pessoas têm muito ainda para viver. Gosto de fazer a ponte com o momento presente e com as pessoas que são queridas ao biografado”, afirma.

Diz preferir os fins emotivos, as narrativas comoventes.

Talvez por isso as primeiras leituras sejam quase sempre “feitas em lágrimas”. “A primeira etapa é a surpresa, o choque”, informa com um enorme sorriso.

Depois, “vão ler muitas vezes e muitas vezes o mesmo capítulo. Vão reparar em coisas que não tinham reparado. Vão partilhar. Sinto-me, verdadeiramente, uma contadora de histórias”, afirma, feliz.

Levar alegria aos biografados não é a única das tarefas da Máquina Biográfica. Maria recebe em troca fragmentos dessas vidas que, muitas vezes, ajuda a iluminar.

Maria vem de uma família pequena, cindida, esquecida dos bisavôs. Na alegria das amplas famílias, que ajuda a unir, encontra “um bocadinho desse espírito que nunca [sentiu]”.

Em cada nova história, aprende e impressiona-se.

“Portugal tem um património histórico e cultural incrível”, revela, nostálgica. A ruralidade profunda, no tempo do Estado Novo ou o fenómeno dos retornados não cessam de a surpreender. Emociona-se com “essas histórias das pessoas que recordam o seu primeiro par de sapatos, conquistados só quando vieram para Lisboa” e com o saudosismo dos retornados que “deixaram a alma em Angola ou em Moçambique” e que “nunca mais foram felizes”.

O primeiro contacto com cada nova história facilmente é contaminado pela emoção. “Há um momento em que, superada a primeira barreira de comunicação, a pessoa começa a falar, a abrir-se e a conversa vem de um patamar mais factual para um nível mais emotivo”, explica.

Uma paixão inesgotável

Nas frases de Maria, passeiam tempos esgotados prontos a nunca serem esquecidos.

Na capa, recontam-se momentos e personalidades. “A capa deve, de certa forma, ser a representação de imagem em relação ao que está a ser relatado. Há um grande entrosamento entre quem escreve e quem desenha”, reforça.

Multiplicam-se as obras. Seis em cinco meses e a contar. Clientes que regressam para registar outras histórias. Biografados que querem, finalmente, colocar um rosto na artesã que engenhosamente andara a explorar as suas vidas. “Quando a pessoa começa a falar, penso que já a conheço há muito tempo”, conta com a alegria estampada no rosto.

Maria acumula histórias e amigos. “‘Mande-me mails’, dizem-lhe os biografados” e progressivamente a família pequena transforma-se num conjunto de vidas imenso que guarda com estima.

Até quando farei isto? Para sempre”, confessa com uma imensa gargalhada no olhar.

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