Estórias imperdíveis: a face humana da crise grega

Esta semana, a palavra negociação fez correr mais tinta do que qualquer outra. As propostas e contrapropostas, o referendo e as figuras do governo grego têm sido debatidas em páginas e minutos televisivos infindáveis que, progressivamente, esquecem as verdadeiras vítimas deste processo: os cidadãos sem voz ou dinheiro para levantar.

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Desde 2011, Georgios, 61 anos, e Barbara Karvouniaris, 64 anos, partilham uma velha caravana plantada num subúrbio de Atenas.

Barbara cuida do pequeno jardim que cresce em torno deste lar improvisado. Georgios recicla o que encontra nas ruas, faz longas caminhadas e sonha com o sabor do leite fresco.

O casal de irmãos não tem dinheiro ou esperança. O referendo de Domingo não lhes atiça minimamente a curiosidade. “Não vejo como poderá afectar as nossas vidas. De qualquer modo, já não tenho esperança”, diz Georgios ao The Guardian.

Sete anos de crise esgotaram o povo grego: 26% da população está desempregada, mais de 30% vive abaixo do limiar de pobreza (que, na Grécia, corresponde aos 660€ mensais).

Há quatro anos, Georgios era segurança num banco. O desemprego quase os atirou para a rua. Sentados nos degraus do prédio onde moravam, em lágrimas e com o aviso de despejo no colo, Georgios e Barbara estavam desesperados.

A crise roubara-lhes o emprego, as poupanças e, por fim, o tecto, que os tinha protegido por mais de 30 anos. A caravana onde hoje vivem foi comprada com o esforço de cerca de 20 pessoas – entre as quais o vizinho que os encontrou à entrada do prédio – que continuam a ajudá-los, financiando parte da sua alimentação.

Não têm electricidade, a água canalizada é uma comodidade recente e continuam sem receber qualquer apoio do governo.

“Trabalhei toda a minha vida. Paguei sempre os impostos. Tenho 61 anos e, não fosse a generosidade das pessoas que há três anos nem conhecíamos, estaríamos a dormir num banco de jardim”, reforça Georgios.

Segundo um estudo da Universidade de Creta, só em Atenas, 17.700 pessoas não têm agora uma habitação segura . Cerca de 320.000 famílias gregas têm pagamentos imobiliários em atraso.

A restrição dos levantamentos multibanco que tanta atenção mediática tem gerado parece, assim, esconder esta realidade grega [bem] mais dura.

60€ por dia, todos os dias, são 1.800€, no final do mês. Os rendimentos de mais de 30% da população não atingem nem metade desse total.

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Ainda assim, as filas junto às caixas multibanco crescem rapidamente.

“Em quase todas as caixas que visitámos, pelo menos 10 a 15 pessoas esperavam na fila. Nunca esperámos menos que 25 minutos”, escreve Nuno André Martins no Observador.

“Nem 60€ consigo levantar. Ontem já não consegui levantar dinheiro. E agora faço o quê? Como do caixote do lixo?”, irrita-se Yanis, de 42 anos, perante o ecrã do multibanco que indica a ausência de notas.

“Se chegamos tarde, já não conseguimos dinheiro, ou pelo menos não o dinheiro todo”, acrescenta Eyodoxia, 27 anos.

Devido à afluência e ao montante, sucessivamente, retirado (60€), as caixas tendem a não ter notas inferiores a 50€. “Das sete caixas que visitámos, apenas uma conseguia dispensar notas de valor inferior”, reforça André Martins.

Grexit

Grexit não designa, contudo, somente a saída da Grécia da Zona Euro. Uwe Dahlhoff deu-lhe um novo significado: vodka com um travo a limão.

Dahlhoff é alemão e pretende, já nos próximos dias, encher as prateleiras dos supermercados com a sua bebida [temática], que custará 59 cêntimos a garrafa.

“Divulgar este produto como sátira é suposto fazer as pessoas pensar duas vezes sobre tudo o que se está a passar ou fazê-las pensar de todo, demonstrando-lhes o quão séria é a situação”, conta Dahlhoff ao The Telegraph.

Em nome da causa grega, na Alemanha vender-se-á vodka. No Reino Unido, lançou-se uma campanha de crowdfunding para ajudar o governo helénico no pagamento da dívida.

Thom Feeney, 29 anos, funcionário de uma sapataria em Londres, fundou o Greek Bailout Fund, esta segunda-feira, na plataforma Indiegogo.

O objectivo é a angariação de 1,600,000,000€. Até ao momento, mais de 95.122 pessoas contribuíram. Em cinco dias, mais de um milhão e meio de euros foram reunidos.

Sobram quatro dias e a barra que indica o progresso permanece nos 0%. O montante reunido é, ainda, um milésimo do proposto/necessário.

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O valor mínimo é três euros, em troca dos quais o doador recebe um postal de Alex Tsipras, primeiro-ministro grego; por seis euros, recebe uma salada com queijo feta e azeitonas; por 25, uma garrafa de vinho grego; por 160, um cabaz de produtos tradicionais.

Na lista de presentes, estava, inicialmente uma ilha grega. “Pensei que o Sr.Tsipras concordaria de bom grado, mas a IndieGoGo enviou-me uma mensagem a dizer que o governo grego não tinha concordado oficialmente com esta proposta”, confirma Feeney.

[Parece que, afinal, o leilão previsto nos The Simpsons e que anda a protagonizar múltiplos tweets foi, felizmente, cancelado].

Aguardam-se desenvolvimentos. Até lá, restam-nos os desfiles políticos e a vontade apressada de antever o resultado do referendo. Domingo marcará, certamente, a História de todos nós.

Mais: Please, we need holidaymakers to come to Kos por Mick Brown no The Telegraph

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