Jurassic world: os dinossauros voltam a atacar

Catorze anos após o último filme da sequela Jurassic Park, o realizador de Safety not guaranteed, Colin Trevorrow, traz ao grande ecrã a versão mais intensa, violenta e assustadora deste parque lendário. Jurassic World aposta num revivalismo contaminado pela máxima hollywoodiana “maior é melhor”.

Masrani (Irarfan Khan), proprietário do novo parque temático da [famosa] Ilha Nublar, fita intensamente o cientista. “Pediu-me mais dentes”, relembra-lhe Henry Wu (BD Wong).

“Não lhe pedi um monstro”, grita-lhe o primeiro. “O termo monstro é relativo”, explica Wu com um meio sorriso sagaz. “Para um canário, um gato é um monstro. Nós só estávamos acostumados a ser o gato“.

A sua tranquilidade é perturbadora. Afinal, anda à solta um Indominus Rex, a espécie híbrida de dinossauro que protagoniza esta fita, num parque repleto de potenciais presas humanas.

Parte Velociraptor, parte sapo, parte T-rex, parte choco, parte sabe-se lá o quê, o Indominus Rex promete causar o susto de morte, inexoravelmente, procurado pelos turistas que visitam o Jurassic World.

Maior e mais temível do que qualquer outro dinossauro jamais “manufacturado”, o I-Rex é a estrela do parque e do filme de Trevorrow, também ele fã desta receita de Wu.

Jurassic World é, visualmente, estrondoso. Ao longe, passeiam-se múltiplos dinossauros, cuja concretização é, aparentemente, bem sucedida. A coloração e luminosidade de todo o parque atiçam a curiosidade do [ingénuo] espectador, que, de perto, vê a esperada excelência desmentida.

JW3

A natureza maquínica dos dinossauros é flagrante.

No vale, Owen (Chris Pratt) encontra um Apatosaurus a morrer depois de um breve confronto com o Indominus Rex. O grande plano da criatura moribunda não pode deixar de suscitar algumas gargalhadas. Os seus movimentos, expressamente, robóticos desiludem.

Quando Claire (Bryce Dallas Howard) decide confortá-lo,  o simpático herbívoro levanta, instantaneamente,  a cabeça, revelando um rosto cuja anatomia se parece em muito com o gentil extra-terrestre [E.T.] do famoso filme de Spielberg (1982).

Trevorrow perde-se entre o desejo de despertar carinho, fazendo deste um filme quase familiar, e a vontade de chocar e surpreender de forma tão violenta que a presença de crianças mais sensíveis é desaconselhada.

“Este filme não é para ser visto por crianças”, diz-me a senhora da cadeira do lado com as mãos sobre o rosto enquanto um imenso bando de Pterodactylus raptam e assassinam os visitantes. No fundo da sala, um par de meninas ri-se a bandeiras despregadas.

Junto-me a elas, num misto de incredulidade e certeza de que esta sequência mortífera é a melhor porção de um filme cuja representação, enredo e caracterização [humana] falha tão completamente.

pterodactyl-jurassic-world

Na primeira hora, o rosto de Claire parece, estranhamente, vampírico. O contraste da sua pele pálida com os seus olhos claros e brilhantes  é deslumbrante, ainda que, simplesmente, não-humano. Falta-lhe maçãs rosadas, um guarda-roupa menos insosso e um par de sapatos que não seja ridículo (para tal ocasião).

Do outro lado do parque, Owen encanta com a sua silhueta escultural e irrita com a expressão facial de permanente tensão.

Claire e Owen deixam-se tipificar enquanto reproduzem discursos também eles estereotipados, previsíveis e, por vezes, precariamente construídos.

A sua caracterização e a pobreza do enredo impede o estabelecimento de uma relação profunda com as personagens.

MV5BMjE2MDQ5MDEzN15BMl5BanBnXkFtZTgwMzkwMjM5NTE@._V1__SX1303_SY591_

O filme de 1993 (o original Jurassic Park, realizado por Spielberg) não ostentara dinossauros tão impressionantes, mas conseguira ligar-nos à sua história e às personagens, tornando a eventualidade da sua morte algo mais assustador do que qualquer ameaça à vida do conjunto plástico desta nova adição à sequela.

Embora pretenda destacar-se, Jurassic World sofre, felizmente, de um certo revivalismo.

No escritório de Wu (o mesmo em que descobrimos que passámos a canários), globos de âmbar aprisionam insectos e transportam-nos para os primeiros minutos desse filme inaugural de Spielberg.

A banda sonora, desta vez a cargo de  Michael Giacchino (o mesmo de Inside Out), investe, igualmente, num cadência que faz [re]lembrar os compassos originais.

O grande final (com o rugido do T-Rex no topo da Ilha) instiga nostalgia, fazendo-nos considerar as duas horas anteriores algo que ronda, precariamente, o aceitável.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s