O interruptor da Lua

Cuidadosamente, Augusto rebolava o seu esponjoso corpo azul sobre cama de ar que, recentemente, adquirira. Os lençóis voadores que o envolviam naquele perfeito casulo matinal serpenteavam com os puxões ociosos daqueles seus dedos longos: os mesmos que assassinariam o brilho das estrelas e, consequentemente, a vida na Lua.

29f4cf6670d00a6e022bf5aabfc36814

A luz das primeiras horas invadia o seu pequeno quarto. O chão de madeira escura e as paredes cinza-amarelado pareciam emitir uma claridade irritante incapaz de deixar dormir o empregado do Interruptor. “Que mania têm eles de o desligar tão cedo”, resmungava Augusto de pijama axadrezado e cabelos ruivos em desalinho.

“Um grande pequeno-almoço no Café Amélia? Bem o merece, meu caro”, mastigava ele, ainda, sem abandonar a cama que flutuava ao doce ritmo da gravidade zero lunar.

Com a barriga espetada para o tecto e com um espelho colado aos olhos, Augusto apreciava o seu aspecto juvenil: os seus lábios carnudos quase pretos e as suas abundantes pestanas tornavam-o, verdadeiramente, bonito. “Talvez um dia case. Quem sabe?”, pensava. “Ou talvez não”, gargalhava face à estúpida ideia de uma união tão efectiva.

Esse comboio de pensamento seguia energicamente, devorando o vale da ironia e do ridículo, mas o estrondo que se seguiu não podia deixar continuar a viagem.

Num momento, o vidro reflector estava suspenso sobre o rosto de Augusto. No seguinte, sobravam, apenas, migalhas de um sonho semi-transparente.

Os seus dedos desleixados tinham atirado o espelho à parede. “Para que servem estas barbatanas?”, questionava-se de boca aberta ao fitar as suas mãos.

Augusto nunca vira um peixe. Não pessoalmente. Não os havia na Lua. Mas os terráqueos mandavam, frequentemente, cartões: “a diplomacia no seu melhor”, comentara Augusto, numa tarde chuvosa, perante a cara estranha desse animal aquático que lhe explicaram ser um peixinho dourado, o segundo melhor amigo do Homem.

A razão pela qual alguém teria querido colocar um amigo de substituição num postal escapara à sua compreensão. Aquelas barbatanas anormalmente pequenas relativamente ao gordo corpo do tal companheiro tinham-no deixado, contudo, curioso. Identificara-se.

Afinal, as suas mãos tinham sido sempre O problema, o motivo pelo qual aos 200 anos estava ainda sozinho num quarto pouco decorado de um hotel lunar. Ou assim julgava Augusto.

“Para que servem estas barbatanas?”, repetiu ele. “Talvez para abotoar rapidamente o uniforme. Estou a ficar atraso”, disse, apressando-se pelo nível aéreo do quarto.

Flutuou escadas a baixo, ignorando a mesa repleta de bolos e chás. “Não se esqueça do pequeno-almoço”, gritou-lhe Olinda do final da sala. “Não esqueço, Olinda. Como-o na estação”, respondeu-lhe Augusto enquanto calçava as suas grandes botas vermelhas ideais para as temperaturas elevados do Interruptor.

À pressa, tentou ligar o automóvel. O tanque de brilho estrelar estava, todavia, vazio. “O vizinho andou aqui de novo”, congeminava irritado e já bastante atrasado para o trabalho. “Mais vale ir de comboio”, ladrou ao volante lilás antes de correr até à rua já animada pelas rotinas matinais.

Morava na Avenida Central da cidade de Satélitolândia, a capital da Lua. Os carros enchiam sofregamente as apertadas passagens. Os seus tejadilhos negros, eficientes na arte de captar o refulgir da estrelas – o combustível de todas as indústrias e actividades lunares – escureciam a iluminada alameda.

Augusto não apreciou este desfile. Entrou de imediato no pequeno vagão que passava em frente ao seu hotel. A coloração acinzentada do comboio contrastava com o néon brilhante que indicava a próxima paragem. “Interruptor. Boa!”, concluiu Augusto que, num salto amparado, se deixou levar até ao baixo edifício.

Desceu três lances de escadas em caracol: um verdadeiro desafio pelo intervalo claustrofóbico entre paredes e pelo investimento a que o corpo tinha de se dedicar para descender.

Todas as manhãs, o mesmo exercício; a mesma descida até ao núcleo da Lua.

No sala vagamente ampla, as secretárias enchiam todas as paredes disponíveis. No centro, o Interruptor brilhava: era manhã, a escuridão tinha sido desligada.

Augusto aproximou-se: “como estamos hoje?”, perguntou a Afonso, o rapaz franzino que controlava precariamente as radiações e evitava que a luz atingisse qualquer intensidade ameaçadora. “Um pouco acima da média, mas deveremos estar melhor ao crepúsculo, quando começarmos a utilizar o novo gerador”, explicou.

“Sem gerador, o Apocalipse não tardaria, não é? Vocês e as despesas sempre muito necessárias. Brinquedos, digo eu! Brinquedos”, riu Augusto do alto do seu cargo administrativo. “Vai buscar um café, rapaz. Estou esfomeado”, ordenou-lhe, arrogantemente.

Augusto observava o painel com alarme. Mais uns graus e estariam todos cegos: a noite seria impossível de impor, as estrelas não conseguiriam brilhar, a Lua inteira morreria.

“Talvez precisemos mesmo do tal gerador”, pensava ele. O Interruptor agradecia sempre todo o auxílio possível. Se algo corresse mal no processo de adaptação, a morte estaria, porém, igualmente iminente.

Afonso regressou com o grande copo de cartão. O liquido quente e caramelizado deliciou os sentidos dormentes de Augusto.

O ecrã piscava cada vez mais rapidamente. A tonalidade laranja dos dias comuns deixara-se tingir. O ambiente encarnado sufocava agora por inteiro a central lunar.

“Coloca-o no lixo, rapaz”, gritou Augusto, passando o copo ainda cheio a Afonso.

O Interruptor indicava um nível de claridade mortífero. Augusto entregara-se, afincadamente, ao teclado, mas também o fizera Afonso.

Os dedos do primeiro atiraram o copo frágil ao Interruptor brilhante, que deixou de transmitir qualquer informação. “Escuro, o ecrã. Insuportavelmente, claras as ruas”, pensava, em pânico, aquele ser da Lua.

Augusto condenara-os à morte com a sua pressa e arrogância da classe governante. Em alguns segundos, toda a central explodiu.

O mundo lunar não morreria instantaneamente. Viveria, antes, uma morte lenta, agoniante e dolorosa: sem o brilho das estrelas – gerado, somente, na mais profunda escuridão da noite que o Interruptor assegurava – as cidades paralisar-se-iam e progressivamente a chacina da crise começaria: todos ao mesmo osso, mesmo quando já só restasse isso mesmo: o osso.

Arranjar o Interruptor era impossível, já que a sua energia derivava do núcleo da Lua: o mais luminoso lugar do Universo. Esse centro de luz fora dominado pelos terráqueos numa breve e quase ficcional expedição ao astro.

Hoje, abandonados à sua própria espécie, os habitantes do satélite-mor estavam condenados.

“As estrelas não podem brilhar sem escuridão”, recordava, repetidamente, Augusto, imaginando a melhor forma de abandonar esse barco que uma vez o entusiasmara: a existência.

Uma cápsula de cianeto que lhe fora oferecida, nessa famosa visita e que, desde então, tinha ficado perdida num molar e algumas bagas venenosas levariam esse capitão borda fora, embalado na sua própria culpa e desfeito perante um pedestal partido e uma redoma sem-sentido agora percebida como desnecessária e imprudente.

 “O crime não compensa. O poder também não. Deviam ter pousado o copo, malditos dedos”, sentia aos berros Augusto, no momento em que, cobardemente, abandonava a vida.

Ilustração: Fallen from the sky de Henrique Jorge e A lua de Sergey Tyukanov.
Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s