Um mês de estórias [e favoritos]: Junho

Junho trouxe-me férias; levou-me à praia; conduziu-me a casa e aos velhos costumes; apresentou-me novas estórias: fez nascer o Estórias. Eis agora o desfile dos infindáveis favoritos que tem de desvendar e experimentar você mesmo já no próximo mês.

Sob o peso esmagador dos cobertores, sentia o meu corpo em erupção.

Imóvel e em completo desalinho, adivinhava a tensão que a curvatura dos meus gémeos guardava.

Suspensa naquele estado de semi-vida, respirava a consequência daquelas meias horas diárias de esforço.

O meu corpo imitava em dor o movimento a que o forçara. A corrida não é natural – aquele desconforto comprovara-o – mas é nada menos do que inebriante e aditiva.

Em Junho, não inventei uma mania desportiva nova. Ando há mais de um ano dedicada à corrida, mas, de férias, apreciei, verdadeiramente, o oxigénio, o cansaço e o relaxamento que cada minuto veloz produz.

“Correr é uma droga boa”, escreve Joana Gorjão Henriques no Público.

Adoptara essa prática para não endoidecer com a clausura estudantil. Nos dias de agora, faço-o mais por gosto e pela vontade de coleccionar essa felicidade que só os corredores têm.

Por falar em ser feliz, o mês começou com os dias sem fim de calor da capital e terminou com as chuvadas mornas da insula-mãe. Uma delícia, por conseguinte.

O início das férias grandes (as últimas da minha vida, contei aqui) permitiu a descoberta de algumas praias continentais.

Em Junho, pela primeira vez, abandonei-me à paixão pelo repouso ocioso sobre o manto claro e fofo do areal; entreguei-me ao amor daquelas horas vagas em que, quase a dormir, ia absorvendo um brilho doirado, embalada pelo ritmo lento das ondas que se deixavam morrer.

Experimentei Cascais, Carcavelos, Caxias.

A primeira é perfeita para um dia de aventuras: o Parque Marechal Carmona é ideal para um almoço na natureza ou para uma breve fuga ao corredio urbano.

A praia é cénica, mas deixa pouco espaço para colocar a toalha. [Descubra ou recorde aqui o fotodiário].

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Em Carcavelos, o bulício de turistas é imenso. O mar parece fugir. O mergulho é custoso.

Em Caxias, a fama é menor. À segunda de tarde, parece um grande deserto que nos deixa estender os braços em qualquer direcção sem chocar, embaraçosamente, com o senhor do lado.

Aí, o oceano é meigo, suficientemente profundo e gentilmente agitado.

Tivesse eu permanecido mais alguns dias na capital e decerto lá voltaria com a minha toalha rosa forte e com os meus cabelos frisados pelas tranças francesas com as quais adorei adornar os lados da minha cabeça.

Se esta primeira semana nasceu sorridente, morreu bem triste. Quinta e sexta trouxeram a humidade incómoda que, por vezes, sufoca os céus maravilhosos de Lisboa.

Voei para casa às duas da manhã e eminentemente louca [o atraso massivo do voo provocara tal estado], no final desses dias. 

Encontrei um sol tímido, a que já não estava acostumada, e um orvalho permanente. Um par de hortênsias lilás depositado na minha mesinha de cabeceira animou esta minha chegada tão tardia.

Desde então, tenho renovado esta companhia com as flores que rapto nos meus passeios pelas ruas bucólicas.

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Dormi muito, sorri outro tanto e, como sempre, regressei ao meu tradicional amor por xícaras delicadas e chá de hortelã fresca.

Todas as noites, exploro o parco jardim que a minha mãe mantém, roubo-lhe algumas folhas de hortelã, que sacrifico, logo a seguir, num bule a ferver. O resultado? Uma chávena que consola a alma e desinfecta o espírito.

This photo released by Fox Searchlight shows Gugu Mbatha-Raw, left, as Dido Elizabeth Belle and Sarah Gadon as Lady Elizabeth Murray, in a scene from the film,

De espírito elevado fiquei após conhecer a história de Belle (2013). Realizado por Amma Asante, o filme protagonizado por Gugu Mbatha-Raw revela a história [verídica] de uma mulata criada por uma família de aristocratas (como tal), no século XVIII.

Na tela (ou no pequeno ecrã  do computador), desfilam figuras extraordinariamente vestidas que debatem sobre a raça e a escravatura, indiciando o posterior abolicionismo.

A luz, a musicalidade e a representação fazem desta uma fita soberba a não perder. [Ando a ouvir a banda sonora desde então enquanto navego neste mundo virtual].

As estórias não se ficam pelo grande ecrã. Passeiam-se mundo fora cheias de sensualidade. Multiplicam-se e interessam. A mais curiosa: o anúncio da Amazon de uma nova modalidade de pagamento dos autores das obras usadas no Kindle: à página.

“Os escritores sempre tiveram de seguir as tendências de mercado. A estratégia da Amazon é entusiasmante por diversas razões, especialmente para aqueles capazes de escrever obras cativantes [page turners] que a nova fórmula honra)”, enfatiza Peter Wayner na The Atlantic.

Depois da produção jornalística se ter convertido à cultura do clique – o jornalismo à peça é uma patologia preocupante que tende a contaminar outras áreas – estará a Literatura preparada para uma mesma mudança?

Que aconteceu ao lema “poucos, mas bons”?

Não é que seja tão ingénua que não perceba a necessidade de gerar lucro.

Parece-me, contudo, que o novo modelo privilegia romances de leitura leve que se devoram num ápice, embora talvez seja nos grandes livros que, geralmente, aborrecem o leitor comum nas primeiras cem páginas que se esconda a mais pura genialidade. Aguarda-se, ansiosamente, desenvolvimentos.

Termino este mês de estórias e favoritos marcado pelas mortíferas negociações helénico-europeias, pelos atentados na Tunísia, em França e no Kuwait, pela onda de calor fatal, no Paquistão, pelo fim da proibição da dança no Japão, pelas novas provas de espionagem americana divulgadas pelo Wikileaks e pela morte de Christopher Lee (o lendário Saruman) [e por tantos outros episódios a desvendar aqui] com um par de vídeos predilectos.

Em primeiro lugar, este Heartbeat de Chriselle Lim, que integra a campanha #changedestiny, sublinha o modo como perante o obstáculo, a dor que nos parece querer matar é, exactamente, o alimento fulcral das asas que criamos para o ultrapassar.

Como todas as produções de CL, a fotografia e o acompanhamento sonoro é fabuloso. Imperdível, mesmo!

Por último, um sonho de viagem: Mimi Ikonn no Rio de Janeiro. O melhor do Brazil pelo olhar positivo da lente de Mimi. Um guia rápido no adorável estilo vlogCrazy in love with Rio é para assistir, quando quiser escapar

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3 pensamentos sobre “Um mês de estórias [e favoritos]: Junho

  1. Reparei que gostaste do meu registo fotográfico em Óbidos e nas Caldas. Acabei por actualizar o artigo, substituindo por uma reportagem de ambiente do Caldas Late Night. Espero que gostes igualmente. O registo fotográfico que foi excluído do artigo será incluído numa próxima publicação da rubrica Likes da Semana.

    Gostei muito desta publicação. Acho que tens uma voz muito própria na escrita e que mesmo quando falas da tua própria experiência tendes a escrever de forma literária. Gosto muito de Cascais e de Carcavelos. Vivi em Carcavelos durante oito anos, mas confesso que guardo poucas memórias. Recomendo-te uma visita a Cruz Quebrada, por causa da vista da estação.

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    1. Obrigada pela recomendação. Eu Setembro estou lá plantada 🙂
      Toda a Linha de Cascais parece repleta de praias fantásticas. A Cruz Quebrada é mais movimentada ou mais sossegada?

      Fui ler o teu novo artigo e gostei bastante: um programa muito alternativo e exótico. Sempre pensei em Óbidos como uma localidade mais “tradicional”. Nunca lá fui, mas fiquei curiosa…

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      1. Eu achei a Cruz Quebrada sossegada, mas além da vista da estação não sei que pontos turísticos tem. Fui lá parar sem querer uma vez que fui arrastada para a linha para ir ver um treino da seleção ao Jamor.
        O Caldas Late Night não é em Óbidos, Isavel. Óbidos é mesmo mais tradicional, parece que voltas ao passado, é muito calmo e bonito. O CLN decorre nas Caldas. Mas gostava de voltar a óbidos para a feira medieval, não sei se será possível.

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