Lisboa tem um coração árabe que palpita

Todos os meses, Natália Nunes conduz um grupo de visitantes pelos recantos lisboetas onde sobrevivem os vestígios da presença muçulmana na Península Ibérica. Contam-se lendas, ouvem-se poemas e recorda-se a História de uma cidade que fervilha sob a Lisboa de todos os dias.

Largo-da-Severa (1)


Perdida entre prédios coloridos, a Casa dos Bicos, com seu revestimento em “pontas de diamante”, marca o ponto de encontro do passeio pela Lisboa Árabe.

Sob um sol tímido, Natália Nunes, investigadora da Literatura do Al-Andalus na Universidade Nova de Lisboa e guia do percurso de hoje, prepara a pasta, apresentando-se aos 14 participantes que a rodeiam.

Vamos recuar ao século VIII. Ao ano de 711”, anuncia. “Os árabes entraram na Península Ibérica que se passa a chamar de Al-Andalus. É esta cidade guardada no seio de Lisboa que hoje exploraremos”, conta, despertando a curiosidade dos participantes.

“Começamos aqui, junto à Cerca Velha ou Cerca Moura, que fortificava a cidade muçulmana”, explica.

No interior da Cada dos Bicos, os vestígios dessa muralha construída no período romano e reutilizada pelos árabes impressionam o grupo.

“Seguimos para a Alfama”, orienta Natália. “O nome ‘Alfama’ terá derivado da palavra árabe ‘Alhama’, que significa termas de água quente e fria”, informa a guia.

O grupo atravessa o pequeno túnel que dá acesso à Fonte do Poeta, onde Natália declama versos e chama a atenção para a laranjeira que cresce ali ao lado.

“Já alguém comeu uma destas?”, questiona, divertida. “São laranjas azedas, um cultivo trazido pelos árabes”, conta. “Provei uma destas laranjas numa praça e são horríveis”, ri Graziela Gato, já acostumada a este percurso. Graziela vem repetir o passeio. “Gostei tanto que voltei e trouxe o meu filho e o meu marido”, comenta, enquanto o grupo aprecia o chafariz.

Dois peixes de pedra abraçam as caudas. Das suas bocas jorra a água que mata a sede de alguns dos participantes.

“Esta era uma região de banhos públicos. Faziam-se depilações e massagens com óleos e perfumes”, conta Natália. “Tinham mais qualidade de vida do que nós”, ironiza Alice Aparício, suscitando alguns trejeitos de concordância.

O grupo desce o Beco das Barrelas, onde as casas de ressalto quase se tocam. Galgam-se os degraus das ruelas onde mal cabem dois pares de pés. Algumas fitas coloridas enfeitam o pequeno intervalo entre fachadas.

Esta varanda está um luxo”, elogia Graziela, apreciando uma janela repleta de flores e ornamentos já preparados para os Santos Populares.

Na parede, um painel de azulejos gastos decora um pequeno largo entre ruas. “Chamava-se Tanque das Lavadeiras”, informa Natália. “Chegava a encher 360 garrafões de água por hora até meados do século XX”, sublinha a guia, surpreendendo os visitantes. “Quando eu ia para o liceu, passava aqui de elétrico às oito da manhã e já havia uma fila imensa”, recorda Ana Pimenta, que traz ao peito a sua fiel câmara fotográfica.

Tocam as badaladas e Natália conduz os visitantes até ao Castelo pelas ruas onde se apressam eléctricos a abarrotar de turistas e tuk tuks.

“Seguimos agora para o Teatro Romano e depois para a Mouraria”, informa a guia. “O teatro merece ser visto”, comenta Alice com o esforço que a subida íngreme exige.

As ruas domésticas da Mouraria deliciam os participantes. A guia faz parar o grupo em frente a uma casa baixa, cuja janela exibe um cartaz onde se lê “Elsa Shams, coreógrafa, bailarina e professora”.

Do outro lado da entrada, espera uma mulher de saia laranja, barriga nua e cintura sonante. “Antes de mais, tenho uma dança para vocês”, avisa Elsa com um grande sorriso.

O ritmo sensual começa. Elsa cobre o rosto com um véu amarelo e balança-se. Os seus braços entregam-se aos movimentos suaves, mas enérgicos.

Quando a música se cala, Elsa serve um chá de menta “à maneira de Marrocos, mas sem os quilos de açúcar tradicionais”. Cálices coloridos passeiam pelo pequeno estúdio, onde se discute a breve actuação.

O grupo continua, descendo a Mouraria até ao Largo da Severa. Na parede, uma silhueta feminina traz sobre os ombros um véu negro estampado.

“Porque estamos agora a falar de fado?”, pergunta Natália. “Há quem o considere uma derivação dos cantos nostálgicos árabes”, explica.

Os participantes percorrem as últimas ruas. “Foi aqui que nasceu a minha avó”, diz Graziela.

“As minhas raízes estão em Lisboa. Estes passeios ajudam-me a descobrir uma outra cidade”, conta. “As cidades estão-me no sangue, mas na correria do dia-a-dia acabo por esquecer Lisboa. Com estas caminhadas, percebo como a capital se vai reabilitando ao longo dos tempos”, acrescenta Ana.

Alice promete voltar para descobrir mais da cidade que habita há mais de 30 anos e diz ainda desconhecer.

Próximos passeios: 

  • 18 de Julho;
  • 1 de Agosto;
  • 5 de Setembro;

Inscrição: info@lisboaautentica.com (12€ por participante)

Fotografia: Alfama por Isabel Patrício e Largo da Severa por The Lisbonners
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4 pensamentos sobre “Lisboa tem um coração árabe que palpita

      1. Eu faço pouco exercício físico, por isso parece-me bem andar, sobretudo se é para ficar a conhecer uma Lisboa ainda mais rica.

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