Estórias imperdíveis: estranheza ao poder

A continuação [interminável] das negociações helénico-europeias, os documentos divulgados pelo Wikileaks que revelam a espionagem americana dos três últimos presidentes franceses e o caso da multiplicação dos canudos na Universidade Lusófona têm dominado as conversas desta semana. Eis três outras estórias bem mais exóticas – e interessantes – para discutir por agora.

A cidade que baniu o Wi-Fi e a “lepra tecnológica”

Diane Schou admite-se uma  “leprosa tecnológica”.

Cansada das dores de cabeça, das irritações cutâneas e da visão turva que sentia quando em contacto com a radiação emitida pela torre de telecomunicações próxima da sua anterior residência, Schou decidiu mudar-se para Green Bank, a cidade que baniu o Wi-Fi e diminuiu a utilização dos aparelhos electrónicos (mesmo os mais comuns, como o micro-ondas): um verdadeiro santuário para electro-sensíveis.

“A electro-sensibilidade pode ser genericamente concebida como reacção extrema a esta panóplia de estímulos a que estamos constantemente expostos”, escreve Ed Cumming no The Guardian.

A patologia que, na última década, adicionou 40 pessoas à população de Green Bank (originalmente, composta por 120 pessoas) não é, porém, clinicamente reconhecida nos Estados Unidos. De facto, a Suécia é o único país a fazê-lo.

Em Green Bank, os electro-sensíveis procuram o sossego tecnológico garantido pelo Observatório Nacional de Radioastronomia. O instituto que analisa os sussurros do universo, estudando a formação das estrelas, nebulosas e supernovas com instrumentos extremamente vulneráveis aos sinais próximos, tem promovido a eliminação da rede de Wi-Fi na área.

“Publicamente, não, mas em casa alguns de nós têm [Wi-Fi]”, confessa Mary a Cumming. A população não-sensível está ainda em maioria e, apesar de dizer aceitar as restrições, não se curvou totalmente à realidade.

A rebeldia dos não-sensíveis e as exigências do electro-sensíveis alimentará ainda muitas discussões em Green Bank, antevê Cumming.


Tama, o felino que salvou a economia de Wakayama, no Japão

Conhecida pelo seu meio sorriso e pelo seu pequeno chapéu, Tama, o felino mais famoso do Japão morreu esta semana, aos 16 anos, depois de 8 anos de trabalho como mestre da estação de comboios em Wakayama.

A popularidade de Tama terá trazido 10 milhões de dólares à economia local. Em 2005, contabilizaram-se 1.92 milhões de passageiros. Em 2014, 2.27 milhões visitaram a estação para conhecer a sua curiosa funcionária.

Tama abandonara uma vida simples de supermercado para se dedicar à estação e rapidamente se tornou uma verdadeira sensação. Os Posters, t-shirts e autocolantes multiplicam-se. Até cafés sobrevivem à custa da sua fama.

Com a morte de Tama, a gata que terá salvado a economia local e a estação de comboios, Nitama, até então aprendiz, ocupará o cargo, confirma a Time.


Arte para ser apreciada um século depois

Em Novembro de 2114, na Noruega, a Biblioteca do Futuro abrirá as suas portas. Nessa ocasião, 100 livros nunca antes lidos serão impressos com recurso a árvores plantadas em 2014. Esse “gesto de fé na humanidade e na palavra escrita” oferecerá às gerações de então obra-primas centenárias, que hoje já estão a redefinir o conceito de arte, imprimindo-lhe um cunho de “lentidão”.

Margaret Atwood, vencedora do Booker Prize Award, e David Mitchell foram os primeiros autores a escrever textos para a Biblioteca. Não têm imagens, são inteiramente secretos e não serão publicados ou lidos até à data de abertura do instituto, anuncia a The Atlantic.

No mesmo ano, em Berlim, câmaras fotográficas programadas para, ao longo dos próximos 100 anos, gradualmente captarem a luz serão recolhidas. Se os aparelhos sobreviverem e permanecerem estáveis, serão produzidas imagens comprimidas da própria passagem do tempo.

Ao fundo, os edifícios entretanto demolidos resistirão, ainda que já somente enquanto sombras difusas. O tráfego sôfrego da cidade assumirá o primeiro plano dessas fotografias seculares.

Mais inspiração: Juice Contract por Monica Heisey na The New Yorker

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