O avesso de Riley é colorido, eufórico, previsível

A mais recente longa-metragem do realizador de Up: Altamente e de Monstros e Companhia, Pete Docter, promete explorar os confins da mente humana, propondo uma leitura do avesso da aventura que é crescer. 

A fachada azul-pálido da nova casa de Riley em São Francisco, na Califórnia, parece assinalar o fim da sua infância feliz.

Pelo menos, é essa a opinião da equipa de emoções que assume o controlo da sua mente: Tristeza, uma roliça figura azul em permanente depressão; Raiva, um Senhor Fredrickson esponjoso e encarnado; Medo, um esguio rapaz de laço e colete; Repulsa, uma esbelta rapariga de pestanas esvoaçantes e atitude quase insolente (criativamente, interpretada por Mindy Kaling), e Alegria, a primeira a surgir e aparentemente a líder das operações.

Longe dos seus amigos, da sua escola e de tudo o que conhece, Riley – ou melhor, o conjunto de seres que vivem na sua mente – terá se de adaptar a esta nova realidade, que, à primeira vista, não é nada sorridente.

Um quarto vazio é uma oportunidade“, sugere, energicamente, a Alegria. A silhueta amarelo-manteiga propõe uma disposição simpática para os móveis capaz de ultrapassar as limitações naturais desse novo quarto que desanimara Riley e o restante conjunto.

Inspirada, a pré-adolescente galga as escadas de madeira cor de mel à procura das caixas que trouxera do Minnesota. “A carrinha das mudanças só chega Quinta-Feira”, informa o pai, a quem o bigode farto confere um ar distinto e carinhoso. A Tristeza assume de novo o controlo da mente de Riley, numa dança rápida e interactiva que se agita ao longo de todo o filme.

Inside Out não apresenta, contudo, essa prometida história da mudança de Riley, nem revela, verdadeiramente, a sua viagem pelos caminhos que conduzem à adolescência.

O filme de Docter arrisca, antes, a exploração do próprio funcionamento da mente humana, propondo a análise das estruturas cognitivas da pré-adolescente num cenário pintado pela imaginação.

A coloração da longa-metragem da Pixar é eufórica – tal como a própria Riley, que é, predominantemente, dominada pela Alegria – a arquitectura desses conceitos até então abstractos é elegante, mas a produção final não é o êxito que esperávamos.

A proposta é audaciosa. Concentrado no desafio da imagificação desse mundo abstracto, Docter negligencia, porém, o desenvolvimento do enredo.

A história de Inside Out é fraca, previsível e, no pior dos momentos, cliché.

A Alegria – brilhantemente interpretada por Amy Poehler – é a única personagem plenamente esculpida. É deslumbrante! Embora se apresente como figura representativa de uma única emoção, esta personagem entusiástica mostra-se repleta de nuances encantadoras.

Contrariamente, a Tristeza confessa-se, inicialmente, unidimensional. O desenlace concede-lhe algum revelo, mas não concretiza totalmente o seu carácter. A Repulsa, a Raiva e o Medo são, efectivamente, as personagens que mais flagrantemente se assumem como meros esboços.

Esta equipa deixa, ainda, transparecer o estado incipiente do desenvolvimento emotivo de Riley e da construção proposta em geral.

“Onde ficam as outras emoções?”, perguntar-se-á o espectador.

Anthony Lane, na The New Yorker, sublinha a grave ausência do Aborrecimento e da Inveja. Embora seja possível argumentar que a maturação colmataria essas falhas, a apresentação das mentes [adultas] dos pais de Riley desvenda a permanência desse lapso.

Por outro lado, em Inside Out, a ausência da Lógica ou de uma figura que se assuma, autonomamente, como Riley naquela sala colorida dominada pelas emoções é gritante.

O espectador cola-se a Alegria, na sua viagem pelos confins da mente enquanto assiste ao desmoronamento progressivo da vida da pré-adolescente causada pela Raiva, pelo Medo e pela Repulsa, perguntando-se acerca da possibilidade de Riley escapar ao domínio dos impulsos não tão sábios dessas figuras.

Riley aparece, portanto, como veículo vulnerável, consolidando-se a natureza parasita destas criaturas emocionais.

Na sala de cinema, o espectador mantém-se impávido e incapaz de gargalhar, sorrir ou chorar. A construção narrativa impede o estabelecimento de uma ligação com Riley e promove a conexão à Alegria, cujo carácter, por vezes, sufocante aborrece, irrita e atenua esse laço criativo.

Trata-se, claramente, do triunfo da vontade de transmitir uma mensagem sobre o desejo de contar uma história, falhando, por conseguinte, a explicação de alguns dos pontos vitais do enredo: porque se desmoronam as ilhas da personalidade a ritmos diferentes e o que acontecerá quando todas forem destruídas?.

Up: Altamente tentara uma receita semelhante. A natureza dinâmica e divertida desse argumento está, todavia, ausente neste filme mais recente.

As personagens de Up são intemporais, as de Inside Out efémeras. O trabalho musical que acompanha o primeiro é nada menos do que extraordinário. Os ritmos de Divertida-Mente são repetitivos e insossos embora partilhem a mesma autoria (são ambos criação de Michael Giacchino).

A narração de Poehler embala-o, energicamente, mantendo-o animado – não interpretasse ela a Alegria – nesta hora e meia repleta de lacunas e imaginação.Mergulhado neste filme, cuja musicalidade é morna e as personagens são rascunhos do que poderiam ter sido, o espectador aproveita a magnífica estética pixariana que jamais desiludirá.

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3 pensamentos sobre “O avesso de Riley é colorido, eufórico, previsível

  1. Não concordo totalmente contigo, Isabel. Embora tenhas razão em alguns pontos, em que eu não reparara até ler esta tua crítica cinematográfica, não acho que o filme tenha sido um falhaço total, incapaz de fazer sorrir ou chorar.

    Quanto ao ritmo de destruição variar, penso que tem a ver com a força da estrutura e a importância que ela assume na vida da personagem. Por exemplo, a ilha da família foi a que mais demorou a cair. Parece-me que podemos as duas concluir que demorou mais porque era também a mais forte e, por isso, a menos vulnerável a ataque.

    O que acontece depois da destruição de todas as ilhas? Nada – porque se tratou apenas de uma desestruturação e não de uma verdadeira destruição. Sem traços de personalidade latentes, a Riley mostrou-se apática, ou seja, incapaz de sentir seja o que for, daí as emoções terem perdido o painel de controlo. Quanto as pessoas estão num estado de vazio existencial, não reagem à envolvente e têm dificuldade em encontrar memórias que as preencham. O painel de controlo também não foi possível de recuperar antes da Alegria e da Tristeza regressarem ao quartel, porque as personagens na mente de Riley representam as cinco emoções básicas, daí não existir a Inveja e o Aborrecimento, que são emoções secundárias. A minha mãe, que é Psicóloga Clínica e da Saúde, confirmou-me esta teoria, embora Paul Ekman tenha sugerido seis (com a adição da surpresa) e exista um estudo recente que sugere apenas quatro.

    Enfim. Podia continuar a discussão, mas trabalho amanhã de manhã. De qualquer forma, vou continuar a seguir as tuas críticas cinematográficas.

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    1. Olá, Raquel. Antes de mais, quero confessar-me uma verdadeira fã dos filmes de animação (gostaria mesmo de escrever o argumento para algum um dia). Talvez por isso, e por todos os comentários estrondosos que parecem rodear este filme, entrei na sala de cinema com as expectativas ao rubro. Infelizmente, saí de lá com elas desfeitas.

      Não é que o tenha odiado por completo. Na verdade, apenas não consigo compreender como podem alguns críticos considerá-lo o melhor que a Pixar já produziu. Não sei concordas comigo, mas mesmo no que tem de melhor, esta longa-metragem não chega aos pés de filmes como Up, Toy Story [stories] ou mesmo Finding Nemo. Apesar disso, tenho de reconhecer que o argumento deste Inside Up é muito mais original e interessante. Falha, contudo, na realização desse sonho tão ousado, penso eu.

      Portanto, não foi um falhanço total. Não, até porque a premissa, a interpretação e a própria animação foram muito bem conseguidas. A opinião que expresso é, somente, o reflexo da frustração dessas minhas expectativas (há muito que espero um novo Grande filme e este erra, justamente, naquilo que mais aprecio: um bom enredo com personagens completas e estranhas).

      Em relação ao ritmo da destruição, não podia estar mais de acordo. Era essa a minha ideia, mas depois comecei a pensar que a Ilha da Honestidade/Verdade não podia ser destruída com um único golpe. Efectivamente, a Ilha da Família tinha de ser a última e a mais demorada, mas não devia a honestidade demorar mais um pouco? Afinal, uma mentira não faz de nós, instantaneamente, seres desprovidos de integridade.

      Desconhecia a Teoria de que falas. Obrigada pela informação 🙂 Vou pesquisar mais e talvez consiga apreciar melhor a fita. Contudo, sinto que, da forma que são expostas as emoções, Riley parece demasiado unidimensional… o desenvolvimento final (as memórias tingidas com várias cores) contraria essa primeira impressão, mas ainda assim parece que falta qualquer coisa.

      Já agora, o que acontece, por exemplo, ao Raiva quando está calmo? Ou à Tristeza, quando sente algum alento? Não será perigoso transformar as emoções em criaturas capazes elas próprias de se emocionar?

      Por último, em relação à questão “o que é que acontece quando tudo é destruído”, gostei bastante da tua proposta. Quando vi o filme, senti falta, porém, de uma explicação clara (afinal é um filme para crianças) desse desenlace iminente. Estava a pensar que sem emoções, Riley ficaria apática, até perceber que a apatia exigiria qualquer tipo de monopólio do lado lógico.

      A lógica jamais aparece no filme, o que é estranho. No seio daquele caos, não há indício de uma vontade racional capaz de controlar as emoções. Bem sei que, por vezes, a racionalidade não consegue competir com esses impulsos naturais, mas apagá-la do enredo e pressupor que é possível um estado de insensibilidade é bastante precário. Trata-se, claramente, da mera falência da materialização desse “vilão”/pólo oposto (e os vilões sempre foram os meus preferidos, daí sinta tanta a sua falta).

      Embora não seja o melhor da Pixar é, sem dúvida, altamente controverso. Estas discussões são entusiasmantes, porque, saindo de um âmbito estritamente cinematográfico, começamos a discutir a própria mente humana. É claro que isso sublinha o sucesso do filme, mas será suficiente?

      Já agora, bom trabalho 🙂

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