Assassina-me as certezas

A curvatura gasta da sua coluna enchia o pequeno divã abandonado no centro da sala empoeirada. De olhos intensamente ligados à dança dos primeiros raios da manhã, os seus eternos bigodes brilhavam. O ritmo elegante do dia invadia-lhe o corpo uma última vez. Henrique estava, enfim, sozinho.

No chão, entregue ao tapete idoso de lã caramelo, a silhueta masculina daquele homem comido pelo tempo fitava o nascimento da luz. Henrique rolou sobre o ombro esquerdo e percebeu que a respiração regular de Emma tinha sido interrompida.

Henrique sentiu-lhe o pêlo macio. Esperou ouvir o ronronar suave habitual. Em vão. Emma partira. O seu olhar morria com ela.

“Bom dia, senhora Margarida. Quando puder, passe cá a recolher a Emma”, avisou pelo telefone o homem, minutos depois. “Quer que lhe mande o pequeno almoço?”, perguntou a voz docemente séria. “Não, obrigada. Acho que vou dar um passeio”, confirmou Henrique já preparado de bengala na mão.

O tilintar dos seus olhos de substituição agoniava-lhe a alma. Estaria completamente sozinho nos ínfimos dias que lhe sobravam. Perdido sem o violento afecto de Emma, sua leal companheira desde o início da estada naquele forçado retiro para pessoas na sua condição: “ultrapassadas”, resmungou ele, ao segurar os braços de metal da cadeira que devorava os degraus de madeira escura.

A manhã acordara quente, húmida e quase estival. Faltava-lhe a qualidade insuportável do Verão, mas já começava a agredir, agradavelmente, a pele. Como adorava Henrique aquele assalto da natureza! As petúnias estavam em flor. Sentia o seu odor leve, fresco, quase adocicado. Os patos passavam a correr, desestabilizando os seus curtos, mas firmes passos.

Henrique sentou-se na poltrona de ferro torneado escondida na margem daquele lago, permanentemente, na iminência da seca. Sentia-se distante, naquela manhã: quase jovem. Percebia o coração trémulo da cidade a alguns quilómetros. Sentia-lhe o cheiro. Aquele odor inconfundível de Londres, nas primeiras horas: esse verde poluído que intoxica a memória.

“Posso?”, questionou uma voz desconhecida. “À vontade, senhora…?”, indagou Henrique, reconhecendo, apenas, a sua tonalidade feminina. “Deixe lá isso”, insistiu a desconhecida. “Que anda a fazer por aqui? Por esta altura, andamos todos ainda a dormir”, sugeriu o homem.

Henrique ouvia a respiração acelerada da recém chegada companheira de conversa. Estivera, com certeza, a correr. Não podia, por isso, ser idosa. Ou pelo menos, não tão idosa que pertencesse àquele lugar.

“Desculpe, menina, mas devia estar aqui?”, perguntou-lhe, mergulhado numa curiosidade atrevida. A voz desconhecida não lhe deu o prazer de uma resposta.

“Pode continuar. Não se preocupe, levarei a sua presença para o outro mundo”, gargalhou Henrique, pensativo. Restava-lhe tão pouco tempo. Aquele episódio seria uma imortal delícia. O mistério de uma voz vigorosa, sensual, ainda por amadurecer.

“Será que pode indicar o caminho para a saída este?”, reagiu, por fim, a anónima. “Siga pelo trilho junto aos carvalhos”, indicou Henrique. “Carvalhos?”, a voz parecia perdida na confusão. “Porque não a conduzo eu?”, sorriu, entusiasmado com a potencial charada que envolvia a sua companhia. “Vamos?”, levantou-se ele, subitamente, repleto de energia.

A bengala de Henrique era a guia muda do casal. O sol ia bailando nos rostos apressados. “Será que podemos andar mais rápido?”, mas o passo que Henrique encetava já correspondia a um corrida olímpica para a sua idade. “De que foge, menina?”, arriscou.

“Vamos?”, insistiu a voz agora mais áspera. Henrique parou. Que tinha ele a perder? A alegria de uma aventura, por mais estimulante que fosse, nunca justificaria o auxílio num crime mais grave do que o aceitável, pensava ele.

“Vamos?”, repetiu a desconhecida. “Diga-me o seu nome e do que foge, por favor”, exigiu Henrique. Os passos prolíferos da figura feminina distanciaram-se. Henrique estava, de novo, sozinho no regaço da pequena floresta.

Minutos depois, dois tiros interromperam a balada matinal dos pássaros. O silêncio povoou a atmosfera nos dois momentos seguintes. O terreno tremia com as pesadas botas dos seguranças que se aproximavam.

“Sente-se bem?”, perguntou-lhe Pedro. O guarda alto como uma árvore tomou o braço de Henrique e conduziu-o ao edifício principal sem uma palavra.

“Encontrei-o no bosque, depois de ter resolvido o dilema”, disse Pedro a Margarida à entrada. Henrique tinha sido remetido à plena mudez pelas mortíferas badaladas. “Que lhe aconteceu? Quem era?”, quis por fim, saber, libertando-se dessa prisão com grades de pânico.

“Chamava-se Helena. Era procurada por assassinato há diversos dias. Recebemos hoje de manhã o aviso de que tinha sido avistada por aqui. Apontou-nos uma arma… o primeiro tiro. Tivemos de reagir”, afirmou Pedro com a voz manchada pelo dever e pela mágoa. “Devias ter avisado os pacientes”, ladrou a Margarida. “Sente-se bem?”, perguntou a Henrique, mais uma vez.

Henrique estava, completamente, mergulhado numa realidade alternativa: pálido. “Aquela voz suavemente áspera tinha roubado vidas?”, pensava. O medo estava desbotado, mas a curiosidade era tão intensa que o sufocava.

Devotado a uma vida de disciplina, Henrique defendera de punhos cerrados a punição extrema de todo e qualquer crime. Tinha, contudo, partilhado algumas respirações com aquela assassina, sem sentir o despertar do radar que julgara ter aperfeiçoado durante décadas. Em jovem, tinha sido detective: estava-lhe no sangue seguir pistas, reconhecer detalhes.

Tão velho como a História, Henrique devorara quase um século de preconceito afinco, que instantaneamente se apagara com aquele contacto fugaz. “A delinquência não se assinalava afinal pelo odor?”, questionava. “Por aquele cheiro a rebeldia mal tratada e a desprezo pelo sistema…”, mastigava.

Cego desde sempre; acostumado, por consequência, aos caminhos desse sentido extraordinário, Henrique dedicara-se à avaliação dos aromas do carácter. Se há quem tome o rosto por mapa do coração, Henrique assumia o odor natural como indício claro da índole.

Conhecia o mofo caramelizado de Margarida, aquela enfermeira de meia idade que exagerava no batom – disseram-lhe – e que adorava filmes de terror. Vivera com o leve aroma a hortênsias e sal de Emma: a sua companheira felina completamente alva – contaram-lhe – fiel aos seus passeios matinais. Explorara o odor a pimenta e álcool de Pedro, um homem forte e musculado – sentira-o –  incapaz de causar qualquer dano, na ausência de uma verdadeira ameaça.

Helena, com o seu cheiro a canela e rosas, inebriara-o. Era jovem. Sabia-o. Era de uma beleza negligenciada. Adivinhara-o. Era selvagem. Cria-o. A liberdade, condição que assumia como obrigatória à sua existência, motivara aquele episódio. Tinha a certeza.

Henrique percebia nesse imperativo o testemunho de que ali jazia uma história muito mais poderosa do que a abatida pela arma de Pedro. “Talvez haja mais no mundo que indícios”, congeminava, 83 anos depois. “Talvez existam estórias coloridas pela natureza e ultrajadas pela sujidade do mundo. Infectadas, portanto, mutantes, interessantes, exóticas”, exclamara, no auditório metafísico do seu conhecimento.

Helena marcara o início de cinco anos de estórias. Henrique não sobreviveria a essa demanda, mas desapareceria com a certeza de que nem as estradas direitas conduzem a finais garantidos. 

Com o último fôlego de Emma morria Henrique; com primeiro que partilhara com Helena nascia um explorador infantil do mundo virgem e selvagem: sedento. Quebrado por esse breve encontro, Henrique abraçara esse mundo de universos simples; atrevera-se a amar o inexplicável; deixara-se seduzir pelo estranho aroma do imprevisível.

Henrique abandonara-se, finalmente, à vida.

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