O Verão é um mito [sufocante]

“Como está o dia hoje?”, perguntei. “Não chove. Está bom tempo”, respondeu-me a minha mãe ainda de pijama e com os olhos pregados ao céu extremamente enevoado dos Açores. “A sério?”, gargalhei, espreguiçando os meus membros levemente doirados pelo sol continental e condenados à alvura pelo mito estival insular.

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“Já passava das duas da manhã, mas eu continuava extremamente desperta”, escrevia Isabel, em 2008, numa noite sufocante de Junho.

Quase às cegas, de caderno sobre os joelhos e cobertores derramados em desespero, a silhueta feminina aplicava a força de uma insónia constante sobre o mundo: esse animal cruel [açoriano] que nos quer estrangular com a sua humidade lânguida.

Hoje é tecnicamente o primeiro dia de Verão, mas quem sabe quando realmente – ou se alguma vez – chegará a estas insulas abandonadas no seio de um calor morno e asfixiante.

Os extravagantes graus continentais receio que nunca receberemos, vivendo uma quase gélida experiência de repousar sobre toalha a tentar secar o recém molhado biquíni. “Mais valia ter ficado na água”, quantas vezes penso eu com a pele visivelmente arrepiada.

Encharcados, lá subimos nós as encostas até ao estacionamento, quando finalmente a nuvem que tapara o Sol (a tarde toda) decide dissipar-se.

O Verão nos Açores é assim: um jogo delicioso – por vezes, enervante – entre o frio e o menos frio povoado de protector solar, longas viagens e maresia. Ai a maresia, esse odor incomparável do sal destes mares domésticos…

Em casa, o pequeno ecrã grita-nos as notícias de uma silly season no seu melhor. Grito-lhe para trás do alto dos meus pulmões. Os noticiários estivais são impossíveis de ver: ou tenho eu um ataque de fúria ou têm todos os presentes na sala, fartos de me ouvir resmungar com o televisor.

“Mudemos de canal, não é melhor?”, sugere a minha mãe meio aturdida pelo meu estado deplorável meio irritada com a minha incapacidade de ver qualquer programa calada.

Saltito entre opções. Centenas delas. “Que queres ver?”, pergunto-lhe eu com um ar angelical a desculpar os meus gritos anteriores que ninguém compreende. “É o adormecimento das massas”, mastiga ainda a besta que devorou o meu espírito juvenil.

“Deixa ver filme”, diz, por fim, a progenitora. Entrego-lhe o comando e dedico-me à observação [quase] silenciosa – não esperem o impossível – desse desfile de um Verão ficcionado.

Rapazes loiros, musculosos e quase efeminados dançam com crianças que imitam mulheres. As praias parecem paraísos calmos e desprovidos da brisa violenta que nos cobre de areia negra e nos obriga a uma dolorosa exfoliação na simples tentativa de limpeza.

“Este Verão vou ficar assim: morena”, penso, esquecendo-me da coloração avermelhada que, certamente, marcará o início dessa jornada e que condenará a estação a um conjunto de horas infindáveis perante o ecrã ou a um mergulho permanente nas proliferas histórias de papel.

O primeiro dia das férias grandes – figura mítica gerada no seio da Primavera já moribunda – entusiasmava-me intensamente. No topo da lista de aventuras, esse eterno projecto de ganhar alguma cor, ingenuamente inconsciente da verdadeira natureza da estação.

“O Verão é um mito”, percebi eu aos 13 anos, nas noites, que passava a escrever e nas manhãs, que passava a dormir embalada no ar frio do estivo natal.

Nas primeiras horas deste dia inaugural, atacada pela mesma insónia de sempre, lembrei-me dessas horas inesgotáveis, cujo final não passava de uma miragem mal anunciada. Este será o último grande Verão da minha vida: o último momento de ócio entre períodos lectivos.

Sinto-me, nostalgicamente, tentada a revisitar esses projectos infantis, com a certeza de que acabarei nívea e embrulhada num escasso conjunto de pijama a escrever poemas às 4 da manhã.

Fotografia: Cascais e Mosteiros por Isabel Patrício
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