Ex Machina ou a derrota da humanidade

Alex Garland estreia-se como realizador em Ex Machina: o desfile sublime da dupla derrota da humanidade. O filme protagonizado por Alicia Vikander (no papel de Ava, um humanoide inovador) ameaça as barreiras do admissível em nome do progresso e evidencia a falência do homem perante a sua própria criação.

No seio do laboratório estéril, Nathan (Oscar Isaac) fita a figura franzina de Caleb (Domhnall Gleeson). “Todos os telemóveis têm um microfone, uma câmara e a capacidade de transmitir informação. Activei os microfones e as câmaras de todo o planeta e direccionei esses dados para o Bluebook”, explica-lhe.

Ava (Alicia Vikander), um humanoide que adquirira traços humanos a partir dessa recolha, é, por isso, produto da violação flagrante da privacidade de toda a humanidade. A consciência artificial brota do uso abusivo da inteligência natural.

No rosto de Caleb, espelha-se uma breve reacção que parece questionar a validade das práticas de empresas como a Bluebook, no filme, ou a Google, na vida real. No entanto, em Ex Machina, o fascínio pela possibilidade de “fazer de Deus” tende a apressar essa reflexão, deslumbrando o espectador com a silhueta metálica de Ava e fazendo-o progredir para outras questões.

A produção de inteligência artificial é e sempre foi, imensamente, problemática. Talvez por isso se mantenha um campo ficcional tão prolífero. Aos dilemas tradicionais – éticos, legislativos e até sexuais – adicionam-se, agora, preocupações eminentemente ligadas à privacidade – ou à falta dela – enfatizadas pelas revelações de Edward Snowden em 2013 e trazidos pelo filme de Garland de forma sintomática.

O grande ecrã é povoado, somente, por quatro figuras e pela luminosidade cinza da Noruega. O edifício futurista que pende, vertiginosamente, sobre um riacho enche-se de luz nos fragmentos da fita em que somos convidados a perceber o contraste entre um Nathan ardiloso e, estrategicamente, depravado e um Caleb paranóico e, espantosamente, crédulo.

Essa natureza envolvente deixa, ainda, transparecer a vontade de criar um Éden bucólico-humanizado. No centro de uma extensa propriedade – acessível apenas por helicóptero e, portanto, inescapável –  onde o intenso verde da vegetação realça o azul extraordinário do céu, Nahtan plantara um edifício de linhas rectas, evidentemente não-naturais. É este o primeiro triunfo desse homem feito Deus: age sobre o orgânico e constrói o seu próprio habitat, dominando o preexistente.

Nesse Éden improvisado, dedica-se à construção de “mulheres” [artificiais] que consolidam o seu papel enquanto autor supremo. A criatura transforma-se em criador: escapa da sua própria condição. Movimento mais tarde repetido por Ava, no assassinato final.

A segunda grande queda da humanidade floresce aí, nessa vitória (previsível) da máquina, motivada pela afecção que Caleb devotara a Ava, de quem esperara reciprocidade.

No início, o dom da inteligência parecera ser assumido como sinónimo de empatia, isto é, Ava só seria um produto bem sucedido no caso de conseguir estabelecer uma relação significativa com Caleb, mesmo perante a evidência da sua natureza [maquínica].

A sua silhueta metálica encimada por um rosto humano clarificara o seu carácter robótico, mas a inteligência que Nathan criara seria capaz de iludir o olho e produzir a certeza da presença de humanidade. O homem cairia – e Caleb cai – perante esse seu charme, aparentemente, humano. Trata-se da repetição sofisticada da paixão de Theodore por Samantha, um sistema operativa incorpóreo, em Her de Spike Jonze.

Esse paralelo sinonímico é, todavia, despedaçado. O indício de humanidade que Ava parece alojar concentra-se na faculdade de ultrapassar esse sua condição segunda de produto. Completamente revestida com a pele dos humanoides, anteriormente, construídos, Ava passeia pela rua apinhada de Homens incapazes de detectar a estranha entre si.

Ex Machina é, assim, um elegante relato metafórico da criação do Homem e um bela incursão pela mundo da tecnologia futura. Ava é, contudo, o pilar solitário desse deslumbre. Na primeira hora, Nathan aparece envolto em estranheza; suscita a curiosidade do espectador, mas esmorece, uma vez explorado. De Caleb ficamos à espera de um traço de génio, mas recebemos apenas a figura plana do ingénuo admirador que falha no reconhecimento da malícia maquínica.

A cor de Ex Machina é fabulosa, mas, infelizmente, não se estende a todas as suas personagens. Na tentativa de matizar Ava, conferindo-lhe um carácter redondamente completo, Garland abandona Caleb a um comportamento previsível.

Vikander é, portanto, o centro deste filme e é ela que impede o aborrecimento total perante os planos morosos, embora incrivelmente belos, das acções quotidianas dos dois cientistas.

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