Ela vestia poesia, inocência, sedução

O perturbador romance de Humbert e Lolita tem chocado gerações. Seduzidos pelo estilo magistral de Nabokov, entregamo-nos ao choque e ao riso numa mescla incómoda e efémera.

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“Pode sempre contar com um assassino para um estilo de prosa sofisticado”, escreve Nabokov no primeiro capítulo do seu intemporal Lolita. O seu brilhante estilo é, de facto, a mais preciosa característica deste romance de 1955.

Rejeitado pelos editores americanos, banido pelo governo francês, aclamado por críticos e professores de ambos os lados do Atlântico, a prosa de Nabokov é deslumbrante, divertida, perturbadora e, paradoxalmente, vagarosa.

A história da relação entre Humbert Humbert, um europeu de meia idade, e Dolores Haze, uma adolescente americana que, simultaneamente, exala inocência e sensualidade – uma verdadeira ninfeta – preenche este curto volume trazido pela voz do primeiro, que se dedica, obsessivamente, à adoração da segunda.

A perturbação provocada, num primeiro momento, por essa relação é, contudo, altamente perecível: evanescente.

Humbert é um dos mais interessantes protagonistas que já encontrei. A sua complexidade produz o desejo de descobrir todos os seus pensamentos, ainda que ao fazê-lo o leitor se arrisque a ficar seriamente aflito ou embaraçado. A sua descrição, inexoravelmente, poética de Lolita, dos espaços que encontram na sua viagem pelos Estados Unidos da América, das suas recordações e dos infortúnios que vão povoando o enredo mantêm o leitor preso e sedento por mais um quilómetro de prosa.

Humbert é doentio, estranho, inocente, culpado; é, sobretudo, deliciosamente engraçado: cheio de espírito, digno de vastas gargalhadas plantadas no meio das ocasiões mais perturbadoras.

O riso age como bálsamo, promovendo a atenuação desse efeito incómodo que vai cansando o leitor.

Humbert e Lolita percorrem milhas e milhas. Somos levados a todos esses hotéis, somos colocados à mesa em múltiplas ocasiões, olhamos tantas vezes para as estradas americanas quase desertas, pensamos de mais na evolução pueril da ninfeta, começamos a odiá-la ao mesmo ritmo que a afecção do europeu cresce.

Se Humbert é das personagens mais curiosas da bibliografia que já acumulei, Lolita é das vítimas/parceiras no crime a quem mais devotei repulsa. Detesto-a, profundamente.

Ingénuo será o leitor que a considere a inocente presa de um experiente predador. Embora reconheça em Humbert um depravado que assume o comportamento infantil de Lolita de acordo com os seus próprios desejos, a ninfeta não é menos devassa que o perverso de meia idade.

A obra de Nabokov não é, todavia, gratuita; é copiosamente regida pelo capricho, o que faz dela, simultaneamente, singular e desagradável.

Neste universo nabokoviano, onde proliferam magníficos jogos de palavras e onde a destreza verbal é soberana, desfilam pequenos mundos egocêntricos que não deixam de irritar. Lolita aborrece-nos com as suas provocações, Humbert degenera-se, torna-se mole e perde a vitalidade que apaixonara.

Nos últimos capítulos, o bailado assassino que Humbert empreende não é mais do que um apogeu gasto.

Assim, o romance, que extraiu o autor das produções exclusivamente russas, nasce pleno e vai falecendo, logo após um curto clímax. De um certo modo, Lolita pressente e espelha a própria energia de Humbert, fechando o ciclo vital com o seu esmorecimento.

Capaz de chocar, afligir e embaraçar, esta obra é a mais triste e divertida viagem que já tive o prazer de ler. De facto, mesmo na falência de Humbert, resta-nos o estilo complicado e traiçoeiro de Nabokov: um atributo nada menos do que arrebatador.

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