Uma oferta fatal

As gavetas metalizadas sufocavam a atmosfera. Olivia fitava a sucessão inesgotável de cofres. A pequena opção luzidia que observava, curiosamente, há mais de meia hora levaria-a à anunciada morte rápida, indolor e deslumbrante que cobiçara toda a sua vida. Tinha de a escolher.

Olivia tocou na superfície do metal. Sentiu-lhe o pulso incessante. Arrepiou-se. A mão pequena que repousara sobre a frieza de um fado condenado uniu a safira que trazia no anel ao orifício da gaveta. Olivia esperou que a fortuna se apoderasse de si; que as estrelas toldassem esse seu espírito fraco.

Um fluxo lânguido de luz cobre parecia tingir-lhe o braço. Estava finalmente a desfrutar da sua herança: a morte deixada por uma bisavó generosa que acompanharia uma efémera, mas vasta vida.

Sentia-se renovada. O seu cabelo, geralmente, quase negro parecia mais avermelhado. A sua pele, completamente macia, ganhara um rubor especial. No interior do seu pulso, o desenho subtil de um cronómetro anunciava a sua curta existência. Restavam-lhe 24 horas de vida.

Olivia abandonou a câmara que por tanto tempo temera. “Espero que tenha ficado agradada com os nossos serviços”, sorriu-lhe o homem idoso sentado à secretária desorganizada – um exemplar raro de idade, neste mundo onde o suicídio é um presente testamentário. “Muito. Obrigada”, gargalhou Olivia, com o seu novo par de lábios, corados, saudáveis, inconectáveis a uma mulher em vias de extinção.

O ar fresco da manhã banhou-lhe o rosto. O calor daquele lugar mortífero tornara-a ociosa; a brisa gélida despertava cada centímetro do seu ser quase cadáver. “Que faremos agora?”, perguntou-se. O sinal néon do outro lado da rua perturbava os seus pensamentos. Anunciava pequeno-almoços dignos do melhor dos mortais e o seu estômago parecia sedento de tais possibilidades. Cruzou o trânsito lento, quase sem olhar para os automóveis; sem nada a perder.

O interior do pequeno restaurante era acolhedor. As mesas dispostas discretamente asseguravam a privacidade dos clientes, muitos deles, certamente, visitantes do estabelecimento que acabara de abandonar. “Uma pilha de panquecas e um café sem leite”, pediu. Sentia-se trémula. Nem se lembrava da última vez que comera. A empregada adolescente de cabelos loiros um pouco desgrenhados trouxera-lhe uma xícara fumegante. “Tenha cuidado, está muito quente”, avisou. “Claro, que está”, pensou Olivia, percebendo, pela primeira vez, o desperdício constante de fôlego a que nos devotamos com tanta facilidade. O seu humor estava, perfeitamente, desequilibrado.

“Então e as panquecas?”, rosnou à adolescente de uniforme lilás. “Saem já. Desculpe, o seu pedido está atrasado, porque acabou de chegar um homem com menos de duas horas de existência”, sussurrou a empregada, apontando com o cotovelo para o homem sentado ao balcão – exposto, por consequência – cujo aspecto, cuidadosamente, descuidado era nada mais do que deliciosamente viril.

“Mande-lhe um cálice de vinho e deseje-lhe boa viagem”, sorriu Olivia. O seu humor ficara, seriamente, comprometido. Do outro lado do restaurante, os enormes olhos verdes de Simão fitaram Olivia. “A morrer e a encharcar o corpo, hem?”, gritou-lhe com um meio sorriso. Olivia não lhe respondeu. Abandonou-se à pilha tardia de sonhos americanos.

A silhueta musculada estava agora do outro lado da sua mesa. “Desculpe os meus modos”, disse Simão. “Sabe, quando estamos na iminência do desaparecimento, tudo parece tanto e tão pouco. O próprio ato de cá vir roubou-me alguns segundos de vida. Você mata-me”, atirou-lhe uma forte gargalhada.

“Estava só a tentar ser-lhe agradável, já que só lhe restam duas horas”, explicou Olivia, cujas pestanas negras emolduravam perfeitamente os seus olhos amendoados. “Na verdade, resta-me meia hora; nem isso”. “A sério? Mas que bela herança! Acabou de sair do Cofre?”. “Tive duas horas. Passei-as a ver o mar, a sentir o sol a invadir esta pele ridiculamente saudável que o serúm fatal nos dá. Vejo que também a tem. Quanto tempo de lhe resta?”, perguntou-lhe Simão. “A ver o mar?”

Olivia sentia-se completamente estarrecida. Claro que nem ela sabia o que fazer com os seus últimos momentos, mas queria fazer alguma coisa, apreciar a vida, aquele mesmo luxo que decidira negar em virtude de se  sentir destinada  a ser inferior, incapaz.

“Aqui ao lado há uma praia. Tenho lá estado desde que saí do Cofre. Trouxe-me a paz que precisava”, confessou-lhe Simão. “Não me trouxe foi comida e já estava a ficar difícil ver o mar esfomeado”. O olhar perplexo de Olivia começava a perturbá-lo. “E você, que fará com as suas horas? Teve uma bela herança, um dia completo…”. “Não sei, mas tenho que me decidir rapidamente. Já estou a perder tempo com esta refeição”. “Um conselho de um homem moribundo: não tenha pressa, este dom dá-nos não a possibilidade de fazer tudo o que sempre desejamos, mas de apreciarmos tudo o que nunca nos permitiríamos apreciar. Momentos inúteis preciosos. Qual é o seu desejo inútil?”

Olivia recordou todos as tardes radiosas que aproveitara por quinze minutos enquanto corria entre o trabalho e a sua casa, duas cadeias monstruosas que a impediam de desfrutar o decurso natural da vida.

“Não sei. Nunca me dei ao luxo de pensar nisso”, mentiu. A vontade pulsante de estar ao sol, com pés na relva e de cansar os braços com o peso do corpo impediu que a mentira se prolongasse. “Matei-me, porque nem o melhor me chegava. Talvez esteja na altura de experimentar o mundo dos mortais. Na mortalidade, a humanidade”, reflectiu em voz alta.

Simão acariciava a sua barba recentemente germinada com um súbito olhar de interesse. “Venha, vamos ao parque, vamos gozar a minha última meia hora vivendo esse seu sonho negligenciado. Afinal, já matou 10 minutos de mim. Devotar-lhe o que me resta não é senão obrigatório”, sorriu-lhe.

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