Desabafo de alguém cansado de desabafos

Caneta, folha(s), cronómetro e uma imensa vontade de desabafar sobre os podres do sistema educacional: esta tem sido a norma dos últimos dias. Eis aqui uma nova espécie de confissão [muito pouco popular, eu sei]: a de alguém já farto dos pessimistas relutantes perante o mais entusiasmante dos desafios.

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Naquele claustrofóbico cubículo, a silhueta feminina curva-se mais e mais sobre a secretária. Dia sim, dia sim, das seis da manhã às oito da noite, com intervalos insignificantes e mesmo assim assumidos como eminentemente dispensáveis, absorve páginas e páginas de histórias e vidas inesgotáveis.

Será esta a geração das 24 sobre 24? Num mercado universitário, empresarial, financeiro, económico e, sobretudo, de trabalho cada vez mais competitivo, parece frequentemente que ser o melhor ainda é pouco. Ser “perfeito” fica sempre aquém.

Numa crónica publicada no Público, Beatriz Vasques duvida do sistema educativo que orienta o adolescente ou jovem adulto, submetendo-o “a um processo de avaliação injusto e desprovido de coerência”.

Mergulhada em resmas de folhas, autores e apontamentos, questiona-se sobre a validade do critério único subjacente aos padrões de avaliação dos exames nacionais. Beatriz apela à alteração desse modelo de teste, admitindo-se [quase] incapaz de lidar com a quantidade massiva de matéria que lhe está a ser exigida… Chamo-lhe eu “fraca e cobarde” do alto das minhas pestanas queimadas, dos meus dedos deformados pela pressa assassina do sistema e da minha garganta seca pelas recitações extravagantes que povoam as horas antes das frequências.

Não é que o costume seja uma justificação suficientemente boa para a permanência de uma estrutura. Não é, eu sei. De facto, sem o desafio dos cânones estabelecidos não estaríamos sequer no horizonte do território que hoje habitamos. Estou, contudo, cansada desse ócio, repetidamente, pronunciado pela metade desta geração incansável que não se quer esgotar, que quer ser feliz e viver a utopia dos sistemas perfeitos.

Há vantagens num sistema sem rostos, na corrida dos números, na extravagância das noitadas de estudo. O  bom carácter de um estudante, a sua simpatia e amabilidade parecem sempre o critério ideal sugerido para decidir a sua classificação face à eventual falha do modelo original. Eu digo: boohoo. Parem de se fazer agradáveis e ponham-se ao trabalho.

O problema desse aglomerado revolucionário é o de estar a questionar o pilar errado. A metade obcecada com os resultados – essa gente quase vampírica, no período lectivo e permanentemente devotada a nada mais do que aos autores e às suas filosofias – está demasiado imersa nos legados teóricos para, numa primeira fase, ser capaz de despertar e agitar a doxa. A outra metade (sonhadora, esperançosa e verde – ou melhor, bem vermelha) quer destruir o sistema que nem sequer chegou a experimentar por completo. A primeira porção sente-se agradada com o modelo? Não. Não, mesmo! A vida das mil frequências é, porém e sinceramente, um desafio interessante. E nós, membros desse primeiro grupo, adoramos desafios!

Se confessar que adoro sentir-me perdida, sobrecarregada, stressada, no limite, com pensamentos suicidas e choros constantes por companheiros de trabalho, julgar-me-ão, certamente, louca. Esta é, todavia, a mais pura das verdades. Dêem-me uma semana de férias e meses  infindáveis de leituras, nesse sistema “caducado” e difícil.

No discurso de Beatriz talvez esteja espelhada a opinião mais popular; talvez se encontre mesmo a conclusão mais sábia (à primeira vista). “Por que é que haverão de me avaliar a mim e aos meus colegas desta maneira?”, escreve. “Haverá alguma coisa a provar, além da derradeira prova de que trabalhar sobre pressão não é benéfico para ninguém?”, questiona. “Onde fica a prática do que é aprendido, o debate acerca de assuntos pertinentes no nosso quotidiano?”, termina com uma gritante indignação.

Cara Beatriz, a questão é que o sistema não quer testar o vosso carácter, nem o vosso profundo conhecimento semeado nas horas “vagas” [desperdiçadas]. Quer, simplesmente, avaliar um conjunto de matérias que se esperam ter sido trabalhadas intima e colectivamente. O exame analisa a vossa capacidade de unir horas de estudo numa única filosofia de vida pronta a ser apresentada no seu todo e, mais tarde, dissecada.

Geração galopante, tenham calma, muita calma. Como se atrevem sequer a pensar na possibilidade do pragmatismo quando ainda a procissão teórica vai no adro? O engano começa aí, na ânsia iminente de substituir todo e qualquer pensamento mais profundo – porque é uma “seca” sem aplicação – por uma opinião muito convincente e muito vã. Vã, senhores e senhoras-lugares-comuns.

Ando há mais de 14 anos a ouvir a mesma historieta: aquela de que [re]agimos de forma diferente perante o teste, de que um único critério é injusto para uma variabilidade de génios. Não podia ser mais verdade.

Há aqueles que sufocam todos os vestígios de humanidade da sua existência, aqueles que vão recordar os anos de escolaridade como conjunto amorfo de horas fechadas num escritório. Há, depois, aqueles que se fecham no mesmo quarto com o telemóvel por companhia numa ocasião final e sentem-se no direito de se dizer sobrecarregados.

Há aqueles que sentem a angústia do professor que não consegue – ou mal consegue – acabar o longo programa. Há, depois, aqueles que sentem essa angústia e que a comentam com o companheiro do lado vezes e vezes sem conta. Há, certamente, muitas zonas cinza, mas ainda não as encontrei. Desculpem.

Por isso, mulas de carga somos nós: os valentes das bibliografias completas, dos trabalhos com antecedência, da claustrofobia vasta e, sobretudo, do tremor do último dia de aulas – o verdadeiro e inacreditável sentimento de que não conseguimos desligar.

Quando esta semana iniciarem a redacção das folhas e folhas de exame, nem se atrevam a pensar na inadequabilidade deste sistema. É difícil, sim, e, por isso mesmo, é fantástico.

Não somos todos capazes de ser simpáticos – não, é verdade – mas somos todos capazes de engolir uns livros, cortar os laços com a realidade e mergulhar num passado delicioso. Somos todos capazes (basta querermos, é claro) de não colar um pensamento, mas de produzi-lo e de perceber a sua engenharia basilar.

Venho de Humanidades, estudo Comunicação numa das faculdades mais teóricas do país, compreendo a agonia de Beatriz e dos seus colegas, mas deixemos de ser hipócritas: a prova de fogo de 12 anos de ensino obrigatório tem de ser aterradora. Caso contrário, para que andaríamos nós sequer aqui? Por outro lado, qualquer que fosse o modelo (alternativo ou não) estaria errado, porque, primeiro, é da natureza humana questionar e, segundo, as alternativas hoje em dia em prática revelam falhas até bem mais graves.

No solarengo estado da Califórnia, nos Estados Unidos da América, Mira Hu fugiu da escola depois de uma intensa manhã de exames de entrada para a universidade. Apesar de, dias depois, ter voltado para casa, Hu sublinha a imensa pressão que a comunidade jovem asiático-americana  sente perante as exigentes expectativas dos pais e da sua cultura, o que é ainda agravado pelo modelo de teste da nação de Obama, confirma a Quartz.

Adolescentes portugueses, façam-me, portanto, um favor: parem de pensar que a vida pode ser fácil, que os desafios são indomináveis, que as folhas não se esgotam. Parem de choramingar e desperdiçar tempo de estudo a escrever crónicas. Mãos à obra!

O sistema há-de mudar: para pior, espero (salvo determinadas regiões); para um modelo que esgote toda a nossa energia e exija, ainda, uma apresentação oral alargada de todo o conhecimento supostamente absorvido.

Que fique claro, esse programa imenso que desperta tanta ansiedade não é só para copiar à pressa e gravar nos calhamaços que ficam perdidos no quarto.

Tomem os compridos do passado e digiram-nos: pensem, formem uma opinião e só assim conseguirão relacionar, justificar e responder a todas essas exigências complicadas que acompanham o simpático “identifique”.

Por favor, deixem de assumir que o ensino são só debates medianamente inflamados acerca do quotidiano: apaixonem-se por uma mente e verão como esse pragmatismo não há de falhar no seu de vir.

Mais inspiração: Exams around the world de Terrance F. Rosse na The Atlantic.

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