Ela veio procurar paz, vamos dar-lhe justiça

O mais recente filme do realizador de My Week with Marilyn, Simon Curtis, oferece-nos a batalha épica entre Maria Altmann (Helen Mirren) e o Estado Austríaco pela propriedade do famoso Retrato de Adele Boch-Bauer de Klimt. Uma viagem entre duas idades e dois olhares que não merece uma opinião uniforme.

À meia luz, Klimt (Moritz Bleibtreu) aplica as últimas folhas de ouro na tela do [primeiro] retrato de Adele Boch-Bauer. Do outro lado da sala, Adele (Antje Traue) resplandece. O seu cabelo negro sobre a cor nívea do seu rosto e a sua deslumbrante gargantilha produzem um brilho encantador.

Mulher de ouro (ou Woman in gold) traz ao grande ecrã a luta de Maria Altmann (Helen Mirren) – sobrinha de Adele – contra o Estado Austríaco pela propriedade desta obra-prima, roubada da casa da sua família durante o período nazi e desde então conversada na Galeria Belvedere.

No seio desta fita, coexistem duas idades, duas grandes histórias e, infelizmente, duas perspectivas que não merecem igual atenção.

Nos momentos de analepse passados na Áustria Nazi, entregamo-nos à beleza inegável dos cenários, do guarda-roupa e da luminosidade artisticamente esbatida, mas não ficamos por aí: a vitalidade da família Boch-Bauer produz um ambiente cativante, mantido mesmo nos segundos de tensão. O espectador interessa-se, envolve-se.

Actualmente, a obra de Klimt está em exposição na Neue Galeria, em Nova Iorque.
Actualmente, a obra de Klimt está em exposição na Neue Galeria, em Nova Iorque.

Por outro lado, os “dias de agora” – marcados pela actuação de Helen Mirren no papel de Altmann e de Ryan Reynolds como Randol Schoenberg, seu advogado – desiludem.

Schoenberg enverga um traje, absolutamente, ridículo e um rosto desprovido de emoção. O primeiro problema gera-se logo aqui: na ausência de um laço mais forte. Vindos da juventude de Maria e mantidos com o coração à flor da pele, esperamos agora uma batalha feroz, particularmente, emotiva. Encontramos, contudo, duas actuações lentas e ineficazes.

Reynolds dedica-se a parecer sob tensão enquanto que Mirren entretém com o seu direito de meia idade de dizer tudo e parecer agradável.

“Mirren prova de novo que poderia representar uma torradeira e ainda assim entreter”, escreve Kelly McCrillis no Williamette Week . A vencedora do Óscar de melhor actriz pelo seu desempenho em A rainha não consegue, contudo, ultrapassar a mera postura elegante levemente emocionada. Maria (Helen Mirren) encanta com a sua classe, mas não chega a perturbar o espectador com o seu passado.

Quando Altmann (Helen Mirren), ganha os direitos dos quadros de Klimt que lhe tinham sido roubados, ficamos, secretamente, contentes, mas nunca comovidos, embora se trate de um reencontro, supostamente, repleto de emoções.

Este exercício bem intencionado de uma luta entre David e Golias não consegue, assim, levar-nos a torcer com ânimo pelos oprimidos. De facto, o desenlace tornara-se previsível pela construção pobre e aborrecida dos vilões.

Na vasta tela da sala 12, vão desfilando simples caretas de mau humor e ameaças vazias de sofisticação, que deixam antever a derrota dessas forças.

O filme é salvo pelos magníficos flashbacks, pela sua imensa beleza imagética e pelo ritmo agradável que a acompanha. Por vezes, fechamos mesmo os olhos para ouvir com maior clareza a deliciosa banda sonora produzida por Martin Phipps, que anteriormente dera música  a Persuasion (a faixa Randy Schonberg de Mulher de Ouro é reminiscente desse seu passado).

Levado nesse bailado imagético-sonoro, o espectador vai esquecendo as falhas que lhe povoam o olhar e consegue, finalmente, envolver-se. Mulher de ouro deixa, assim, um resíduo de deslumbramento baseado não na construção narrativa – que é, na verdade, um mau aproveitamento da interessante história verídica – mas na beleza contida na luz e na sonoridade desta produção cinematográfica.

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