Entregues à fortuna e ao engenho em Hokitika

O mais longo romance alguma fez vencedor do Man Booker Prize (2013) e a mais jovem escritora a arrecadá-lo oferecem páginas [quase] inesgotáveis de mistério, intriga e suspense. 

No silêncio da pequena sala de estar, o ruído delicado das teclas do computador parecia monstruoso. Eleanor fitava a sua mais recente descoberta: um programa de monitorização do movimento dos planetas através das constelações do Zodíaco. “Escrevi as coordenadas de Hokitika e fiz o relógio regressar a 1864”, conta ao The Guardian.

Sentada na poltrona gasta pelos últimos meses de anotações, mistérios vitorianos e calhamaços históricos, Eleanor ficou ali, durante horas, a apreciar os céus em revolução. Entregue à ideia de um romance, ao qual ainda faltava corpo e concretude, começou a congeminar a transformação dos arquétipos do Zodíaco em personagens humanas.

The Luminaries (ou Os Luminares, na tradução portuguesa) abre, exactamente, com Mercúrio em Sagitário, numa noite tempestuosa, que leva Walter Moody à primeira estalagem que encontra. Trazido a esta pequena povoação da costa oeste de South Island, na Nova Zelândia, pelo desejo de constituir fortuna na corrida ao ouro, Moody encontrará um encadeamento sofisticado de crimes e mistérios que atam os doze homens reunidos no salão que invade, nessa mesma noite.

Emery Staines, um jovem rico, desaparecera. Anna Wetherell, uma conhecida prostituta, tentara acabar com a sua vida. Crosbie Wells, um velho ermita, falecera, deixando uma inexplicável fortuna. Alistair Lauderback, um pomposo político, chegara minutos depois da morte de Wells, horas após o desaparecimento de Staines, no exacto momento em que Wetherell caía para a sua [pretensa] morte.

Neste romance labiríntico, ninguém é quem diz ou parece ser. Vivemos, constantemente, a alegria de descobrir mais e mais de um passado que parece único, tramático. Em The Luminaries, a fortuna assume  a sua dupla face: arrasta vidas pelas terras férteis [em ouro] neozelandesas na incessante caça às pepitas mágicas e condena-as a um jogo que, progressivamente, se adensa.

Enorme, vasta, deslumbrante, a segunda obra de Catton deixa-nos, por vezes, perdidos, no seio de pistas que proliferam e histórias que se multiplicam e fazem desmoronar as hipóteses e certezas até aí conservadas.

Um imenso puzzle aliciante, cujas 832 páginas se recusam a ser abandonadas até ao derradeiro ponto final.

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