Tomorrowland: a utopia distópica dos nossos dias

A utopia tecnológica de Brad Bird propõe uma visão, subliminarmente, negativa da condição humana. O filme protagonizado por George Clooney e Britt Robertson sugere uma visão elitista e obsoleta da imaginação.

Na enorme sala 9, quatro pessoas aguardam o aparecimento do amanhã. “Pensei que fosse um filme para crianças”, comenta a senhora idosa de cabelos loiros e óculos quadrados. “Não, não. É um filme para maiores de 12 anos”, explica-lhe o marido, que desliga o telemóvel mesmo antes do ecrã se encher com os créditos futuristas da Disney.

Tomorrowland: Terra de Amanhã promete-nos uma viagem a uma dimensão alternativa, onde os melhores cientistas, artistas e pensadores se dedicam à demolição dos limites da possibilidade. “Tudo o que se pode imaginar é real”, relembrara Pablo Picasso. Nessa cidade trazida pelo mais recente filme do realizador de RatatouilleUP: AltamenteOs incríveis, Brad Bird, a imaginação é soberana.

A escuridão é cortada pelo rosto descuidado de Frank Walker (George Clooney). “Esta é uma história acerca do futuro”, anuncia. “O futuro pode ser assustador, mas nem sempre foi assim. Quando eu era miúdo, o futuro era…” e, de imediato, somos transportados para os anos 60. Do outro lado da janela do autocarro, fita-nos o rosto fresco de um pequeno sonhador sobrecarregado com a sua mais recente invenção.

Andamos com Frank pela Feira Mundial de Nova Iorque, encontramos Athene (Raffey Cassidy), conhecemos, finalmente, a Terra de Amanhã: um aglomerado, aparentemente, sem sentido (e jamais revisitado) de prédios altos, piscinas flutuantes, robots e jardins verticais.

Visualmente, Tomorrowland é um verdadeiro sucesso. Sob um manto pesado de nuvens, aparece esse mundo idílico: aberto à inovação, à excentricidade e ao génio. Um verdadeiro elogio ao espírito humano – até percebermos o propósito simples da sua construção: realçar a pobre condição humana do ócio e da resignação.

Rapidamente, abandona-se essa cidade utópica, que constitui o maior ponto de interesse do ávido espectador. Andamos entre mundos e idades. Explodem-se alguns robots; espancam-se mais uns quantos, numa viagem desorganizada e confusa que conduz a um clímax pouco anunciado.

“Para salvar a civilização, temos de lhe mostrar o seu colapso”, explica o governador Nix (Hugh Laurie), cujos trajes, ridiculamente, arcaico-futuristas não deixam de divertir. Perante a iminente destruição da Terra, o homem rende-se, já que tentar construir qualquer outro futuro exigiria uma resposta imediata, um ato de esforço que de que é incapaz, explica Nix, justificando a transmissão da imagem de um mundo condenado durante anos, directamente, para as mentes dos terráqueos.

Somos levados a discutir o livre-arbítrio e a raridade com que se dá o seu total aproveitamento. Discursa-se sobre o ócio doente da raça humana, apenas pontuada por algumas mentes brilhantes capazes de produzir alguma transformação. Evidencia-se a dupla face desse conforto, eminentemente, fatal: por um lado, o homem desfila como animal já morto. Por outro, os media figuram monstros narcotizantes.

“E se houvesse uma forma de evitar o passo intermediário e de colocar as notícias, directamente, nas mentes?”, questiona Nix. Frank vigiara esse poder nos seus diversos ecrãs, onde incessantes noticiários coexistiam com a contagem decrescente para a destruição do mundo.

Estaremos a voltar a uma Teoria dos Efeitos Poderosos? Nos anos 40, Harold Lasswell, cientista político americano, propusera uma Teoria dos Efeitos Ilimitados, que antecipara a capacidade mediática para o controlo direto e irreversível sobre o indivíduo. A sua tese, embora valiosa, pereceu perante as suas próprias evidências empíricas: Lasswell encontrara audiências intratáveis, respostas caóticas que contrariavam a esperada homogeneidade promovida pelo imenso poder dos media.

Em Tomorrwland, Casey Newton (Britt Robertson) parece ser a única a resistir aos poderosos efeitos desse enunciados mediáticos transmitidos pelo Monitor. Estamos, por isso, perante a tentativa obsoleta de mostrar o duplo carácter da humanidade: a sua fragilidade face a uma mensagem forte e a sua incapacidade de pensar um futuro alternativo.

É a morte lenta do livre-arbítrio, que é resgatado de forma gasta e esperada pela recolha final dos melhores de nós: dos visionários seleccionados para habitar a nova Terra de Amanhã.  De novo, uma elite é protegida por essa dimensão alternativa, deixando antever nada mais do que a repetição infinita do mesmo resultado que servira de premissa ao enredo.

No final, a tela enche-se de créditos animados cujas silhuetas coloridas encantam, mas fica a sensação de que gastámos duas horas num círculo penoso tão cheio de alarmes e problemas, que não consegue ser verdadeiramente agradável.

“É uma utopia tão simpaticamente optimista como inevitavelmente simplória”, escreve Eurico Bastos, no Observador. Esta Terra de Amanhã é uma máquina ambiciosa, cheia de problemas e desperdícios. É, fundamentalmente – e à semelhança do projecto de Frank – um  sonho muito mal concretizado.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s