Filipa Júlio: a arquitecta que queria ser sapateira

As sabrinas mais caras do mundo custam 3 369€ e são portuguesas. Nascidas no Porto, da imaginação de Filipa Júlio, têm posto nas bocas do mundo o projeto da arquiteta que, há dois anos, decidiu que queria ser sapateira.

Filipa Júlio jura-se fascinada pela possibilidade de “do nada criar tudo”. No seio de um santuário de rascunhos e retalhos, faz desfilar pelas páginas em branco pares e pares de sabrinas que aliam o conforto à beleza e qualidade.

Ao fundo, um imenso quadro de cortiça enche a parede do pequeno atelier. Nesse retângulo de criatividade, fragmentos de coiro, tecido e cordão amontoam-se entre algumas ideias desenhadas. No canto desse quadro, uma bailarina desbotada pelo sol debruça-se sobre si própria. Do outro lado da sala, Filipa senta-se à secretária sob a qual jaz a caixa de cartão que aloja o primeiro par de Josefinas.

Corria o ano de 2012 e na sua fiel sebenta, entre croissants e meias de leite, Filipa rascunhava a silhueta primitiva das sabrinas que são hoje as mais caras do mundo.

As primeiras Josefinas eram de pano florido. As suas solas eram pedaços de cartão de maquete, indício de uma outra paixão já em concretização. “Estas ficaram muito decotadas”, comenta enquanto examina o produto da sua primeira imersão no mundo da sapataria. Desajeitadas, mas já certas de um conceito que transpira dança: um cordão que se aperta e se adapta à anatomia de cada par de pés. Irmãs [afastadas] das pontas ali ao lado guardadas e usadas pela própria criadora, que aos quatro anos foi experimentar o ballet.

Mas não se iluda pela forma frágil, flexível e ajustável dos sapatos de Filipa. As Josefinas não têm essa ligação tão direta ao ballet. Nasceram na rua: nas ruas do Porto e de Mendrisio, onde, em Erasmus, pela primeira vez, a predileção pelos saltos foi ultrapassada pelo amor aos rasos.

O pano florido comprado “naquela rua da Casa Crocodilo que vai para o Teatro São João” foi substituído pelos melhores materiais fabricados em Portugal. Os conselhos do avô paterno, sapateiro de profissão, e a execução então incapaz de Filipa trocados pelo saber dos mestres que há décadas se dedicam à arte da sapataria. “O mais engraçado foi começar um projeto num estilo que nenhum de nós dominava completamente”, recorda Manuel Jorge Magalhães, 51 anos, sapateiro em São João da Vila. Filipa apresentou-lhe esta ideia embrionária que ainda não tinha nome, forma ou palpabilidade.

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Naquele primeiro ano de testes, regressava a casa “super motivada”, repleta de vontade de mostrar a toda a gente os seus avanços num sonho antigo. “Costumava pedir opiniões. Foi muito interessante ver as primeiras coisas a aparecerem até ao momento em que conseguiu arranjar uma colega de equipa e então o projeto foi a todo o gás”, relembra Miguel Verdasca, 26 anos, arquiteto português na Suíça.

Esta companheira foi Maria Cunha, 39 anos, gestora, única mulher no júri do Concurso Novas Ideias de Negócio, no qual as Josefinas ficaram entre as 10 finalistas. A tenacidade de Filipa convenceu Maria a embarcar nesta aventura, embora reconhecesse que “a falta de experiência na área e a concorrência” feroz que marcava o mercado fossem, num primeiro momento, obstáculos sérios a ultrapassar.

Filipa venceu-os e montou uma “pequena família” de colaboradores, que ficaram desde logo encantados pelo projeto e pela sua determinação, revela Sofia Oliveira, 24 anos, responsável pela comunicação da marca.

Filipa: a mulher dos mil projetos

Em maio de 2013, nasceram, finalmente, as Josefinas, batizadas com o nome da avó de Filipa, com quem passeava pelas ruas do Porto em criança. Em setembro, nasceu a Luisinha. “Logo no início da aventura das Josefinas, engravidou: levou a cabo dois projetos, sem descurar nenhum, o que, para mim, foi uma inspiração”, confessa Maria.

Nesta jornada complicada, Filipa insistia, ainda, numa outra paixão: a arquitetura. Alguns anos antes, terminara o mestrado integrado na Universidade do Porto depois de se ter questionado sobre que caminho tomar: belas artes ou arquitetura? Tornou-se arquiteta, mas guarda no caderno da Primária o desejo de ser pintora. “Fazer com as mãos, criar, produzir”, esta é a sua verdadeira vocação. Concretiza-a todos os dias da semana, quer esteja imersa nos rascunhos delicados das Josefinas quer esteja enrolada nas plantas, no escritório de arquitetura com o qual colabora há já alguns anos.

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Nesse escritório do Porto, Filipa é a que há mais tempo se dedica à arquitetura. “É a mais experiente. Aprendemos muito com ela”, confessa Ana Rita Leite, 27 anos, também ela arquiteta. Aí Filipa sente-se mais aconchegada do que se se sentira a trabalhar, em Barcelona, logo depois de sair da faculdade, num gabinete cuja larga escala alimentava a distância entre trabalhadores. A viver pela segunda vez fora de Portugal, sentira saudades da maresia e da vista do Porto, seus leais companheiros.

“Nas horas de almoço, aproveitávamos para ir ver o mar”, confessa Ana Cardoso, 31 anos, arquiteta portuguesa em Bruxelas, colega de faculdade e de algumas das muitas viagens a que Filipa se entrega desde os tempos de infância. “A viagem é sempre uma descoberta: passámos por tantos aeroportos, vimos pessoas de tantos sítios diferentes, conhecemos tantas realidades e tão diversas”, recorda Filipa com uma gargalhada nos olhos e alguma nostalgia no sorriso.

Com Ana visitou a Holanda, a Suíça, Barcelona e Veneza no Carnaval. Com os colegas de Erasmus, “as vilas encantadoras de Itália”. Milão, a uma hora de comboio da cidade onde estava a estudar, acolheu-a, repetidamente, naquele ano. Tornou-se, rapidamente, numa das cidades preferidas da arquiteta.

“Pedro, apresento-te Milão. Milão, apresento-te o Pedro”, ri-se Filipa enquanto relembra a primeira vez que levou o marido ao castelo de Sforzeco, a dois passos do Duomo. Um dos momentos mais felizes daquela coletânea de minutos marcantes que guarda e diz querer continuar a cultivar. A felicidade que se estampa no seu rosto, caracteriza-a, permanentemente.

Ana diz guardar inúmeras histórias divertidas que comprovam essa boa disposição. Andaram em Tomar, ambas com poucos centímetros a ultrapassar o metro e meio, a medir uma Igreja enorme, empilhando bancos e escadotes. Emocionaram-se perante Fernando Távora, quando numa visita rápida ao seu escritório para um trabalho da faculdade, foram convidadas a entrar no gabinete de “um dos arquitetos mais marcantes do século XX”. Partilharam almoços divertidos de frente para o mar. “Uma história engraçada e memorável? Todos os almoços que tivemos juntas”.

Trazer a arquitetura para a sapataria

Companheiras dos anos académicos, que Ana toma como responsáveis pela sensibilidade de Filipa “para os materiais, texturas e cores; para o desenvolvimento dos sentidos no seu trabalho”. Um imaginário de riqueza visual que a mãe das Josefinas afirma ter inspirado esta última edição, da qual faz parte o par Sal Azul Persa, o mais caro do mundo: topázio azul sobre ouro num fundo texturado. A Babilónia, a Jordânia e a Pérsia são os outros três lugares que deram nome e coração a este universo luxuoso.

Da extravagância desta nova edição à simplicidade do primeiro lançamento, declara absorver indícios de tantas pessoas e lugares. Ri com Saramago, acumula imagens com Valter Hugo Mãe, admira a elegância e a atenção ao detalhe de Audrey Hepburn num dos seus filmes preferidos: Charade (1963). A arquitetura ensinou-lhe isso mesmo: a “ver a possibilidade”, a arrastar os mundos para um mundo novo, “a olhar o vazio e a transformá-lo em alguma coisa”.

As Josefinas foram uma “daquelas ideias que não nos deixam dormir, que nós achamos que têm de ser feitas, que têm de andar para a frente”. Do primeiro vestígio de vontade, rapidamente, passou ao diálogo com os amigos e colegas. A visitar uma obra em Melgaço, Filipa verbalizou, pela primeira vez o seu desejo. Miguel, a quem revelara esse sonho, de imediato incentivou-o. “Sabia-a capaz de o tornar numa realidade”. As Josefinas, acreditava ele, seriam “o reflexo da arquiteta que conhecia e que com pouco fazia muito e bem”.

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Um sonho que Filipa acarinha a tempo parcial, mas nunca a meio gás. A arquitetura, acredita Ana, não será abandonada. É ela própria pilar da experiência que tanto sucesso tem colhido.

As Josefinas querem crescer, ganhar uma loja, conhecer os Estados Unidos. Filipa quer amá-las por completo e por inteiro adora a sua primeira profissão. Aos 31 anos, a determinada sapateira que “não sabia nada sobre fabricar sapatos”, revela Manuel, continua enlaçada no “magnetismo emocional da arquitetura”.

Na Suíça, “um caminho iluminado por velas, no meio do nada”, levara-a a uma festa numa antiga pedreira por convite de Peter Zumthor, seu professor e arquiteto dedicado ao lado patológico das obras. No Porto, Filipa olha o mar, a calçada, as ruas acolhedoras, quase domésticas e opera esse mesmo lado emotivo nos pares de sapatos que hoje empilha na mesa estreita do atelier e faz rodopiar mundo fora com o melhor que as mãos portuguesas sabem gerar. Empenha “todo o seu coração nos projetos e só se satisfaz com a perfeição”, elogia Ana Rita.

Nos seus passeios por essas ruas e nos momentos perante a sua amada vista portuense, inspira-se e renova a energia que alimenta este malabarismo que é ser mãe, arquiteta e criadora das Josefinas. No ar salgado do litoral e no prazer de dar vida ao fantasiado diz habitar a fórmula da sua mais profunda essência.

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