Do falecimento da televisão ao império do Netflix

Em 2016, o Netflix chega, finalmente, a Portugal. Mas enquanto cá não chega, vai revolucionando o conceito tradicional de produção, distribuição e consumo de entretenimento, ameaçando matar o modelo televisivo convencional.

Orange-Black

No final do ano passado, o abundante auditório do painel “Indústria de media na sociedade digital”, o último da 6ª Conferência Anual da ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social), ouvia Portugal ser descrito como uma nação acomodada no seu consumo mediático, fiel aos pacotes triple play (televisão, telefone, Internet) e indisponível para qualquer gasto extraordinário.

A entrada de um serviço como o Netflix parecia então uma miragem divertida; irrealista num país que nem para comprar o jornal queria abrir a bolsa, embora se dissesse fã do jornalismo de qualidade. Em 2016, parece que afinal o panorama mediático português terá mesmo de enfrentar mais esta “ameaça”, avança o Observador.

Enquanto cá não chega, o Netflix vai transformando o conceito tradicional de pensar, fazer e distribuir televisão, trilhando o caminho para as séries do futuro.

Em 2013, as séries House of cardsOrange is the new black deixavam adivinhar essa tendência inegável: 13 episódios divulgados em simultâneo, produzidos em exclusivo pelo e para o serviço, amados por legiões de fãs, que, pela primeira vez, matavam o middle man.

A televisão sofria, então, um duplo golpe. As audiências tornavam-se ansiosas, incapazes de acompanhar o ritmo lento – de semana a semana – da grelha televisiva. As séries passavam a ser oferecidas rápida e directamente a estes públicos sedentos.

Esperam-se 19 séries originais, em 2015; quatro já têm as suas primeiras temporadas disponíveis (Unbreakable Kimmy SchmidtGrace and FrankieBloodlineMarvel’s Daredevil). 2014 trouxera 2, 2016 trará 21 séries, que, progressivamente, consolidam este novo modelo de distribuição e consumo de entretenimento.

A estrutura convencional de distribuição, baseada nos canais de televisão, nascera de uma necessidade técnica e prática. Hoje, o Netflix exige nada mais do que uma ligação à Internet – e o pagamento da mensalidade, é claro – para que o espectador tenha acesso a todos [ou quase todos] os conteúdos oferecidos por esses meios tradicionais, com a vantagem de abolir intervalos e publicidade.

Talvez o presságio do falecimento do modelo tradicional de televisão seja tão ignorante como o anterior anúncio da morte do jornalismo [impresso] perante o desenvolvimento das plataformas digitais. Precisaremos sempre de um gatekeeper. O ritmo frenético das notícias – e a sua perecibilidade – exigem essa etapa intermédia de selecção, mesmo e sobretudo com a crescente diversidade de vozes e sorrisos. Escolheremos sempre as nossas fontes predilectas, ainda que já não sejam jornais de prestígio, mas sites mais ou menos fiáveis.

A natureza do entretenimento é, porém, díspar. A série perdura, imortaliza-se, melhora com o tempo. A produção de  entretenimento em blocos é o auge da liberdade do espectador, que encontra no ecrã um produto talhado ao seu tamanho e gosto, adaptado ao seu tempo e não ao tom de um canal de televisão.

O público de hoje não está, contudo, suficientemente desperto para se libertar desse abraço paternalista que selecciona quando e o que ver. Vivemos, ainda, os vestígios da massa. Essa viragem que o fenómeno da produção centrada no audiência promove exige, porém, um espectador mais maduro, capaz de se decidir por entre as potenciais dezenas (ou mesmo centenas) de opções.

Por outro lado, persiste a consciência de que, face à inevitabilidade ardilosa dos pacotes actualmente oferecidos em Portugal, o espectador tenderá a ficar-se por um único investimento. Ignorá-los é impossível, já que sem Internet, o serviço torna-se inviável. Continuar com eles despromove a vontade de gastar mais 10€ em conteúdos mediáticos, uma vez que já os 30 que se investiam anteriormente pareciam um fardo insuportável. Teremos nas mãos outro caso Uber? Estará Portugal a sentenciar-se a um isolamento sintomático? Mudam-se os tempos, permanecem as vontades [portuguesas].

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5 pensamentos sobre “Do falecimento da televisão ao império do Netflix

  1. Pessoalmente gosto muito de inovações nesta área mas surgem dois problemas: a velocidade da internet no nosso país, em muitos pontos, ainda é excessivamente lenta. Por outro lado, no meu caso, sou adepto de séries e cinema europeu e/ou de autor. Já o que não gosto seguramente são os pacotes de tv comercializados no nosso país. Comparados com a tdt inglesa ou francesa (gratuitas)… que vergonha. Já para não falar que estes têm ainda melhor som e imagem.

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    1. Olá, Paulo.
      Concordo, totalmente. A oferta de entretenimento televisivo parece que é cada vez mais redutora.
      Percebo que a lógica da indústria subentenda, necessariamente, a maior captação possível de audiências, mas os canais temáticos portugueses ainda estão longe de agarrar todos os públicos disponíveis.
      Falta-nos bom cinema e boas séries na televisão, embora haja, assumidamente, audiência para tais conteúdos.

      Penso que em outros países europeus, a abertura da tdt significou, também, a constituição de novos canais. Em Portugal, pouco mudou. Na melhor das hipóteses, piorou.
      A FoxPlay, não resolvendo o problema, introduz um novo tipo de serviço que talvez atraia novos públicos e quiçá gere mesmo uma alteração neste panorama. A esperança é a última a morrer.

      Obrigada pelo comentário e pela visita.
      Beijinho.

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      1. Também eu espero que assim seja. Nos canais da TDT inglesa, por exemplo, vejo as séries e cinema que passam nos canais pagos. É lamentável! E com um som fantástico. Tenho um número de canais de música e rádio bastante superior e de qualidade. Não entendo :/ Bjs Apenas fico furioso quando a antena desalinha com o vento.

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